Para Inspirar

Ana Claudia Michels em “A perseverança de um sonho”

Confira a história da médica Ana Claudia Michels, que trocou as passarelas pelos corredores do SUS em busca de seus sonhos, no Podcast Plenae

13 de Setembro de 2020


Leia a transcrição completa do episódio abaixo:

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Ana Claudia Michels: Eu estava em um ótimo momento, pelo menos aos olhos dos outros, eu era muito bem-sucedida como modelo, uma top model reconhecida no mundo todo. E ainda assim eu sentia que me faltava alguma coisa. 


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Geyze Diniz: Ouvir a trajetória da Ana Claudia é ter a certeza de ser embalada por uma doçura ímpar e muita determinação. Trocar passarelas por hospitais é para quem tem um propósito muito bem definido dentro de si mesmo. No final do episódio, você ouvirá reflexões do doutor Victor Stirnimann para te ajudar a se conectar com a história e com você mesmo. Eu sou Geyze Diniz e esse é o Podcast Plenae. Aproveite este momento, ouça e reconecte-se.


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Ana Claudia Michels: Eu tinha 14 pra 15 anos quando dei o primeiro passo fora de Joinville pra iniciar minha carreira.  [trilha sonora] Recebi um convite para vir a São Paulo e conhecer uma agência de modelos. Eu era muito nova e, para não vir sozinha, viemos eu e minha mãe, completamente às escuras, sem saber de nada, só para ver o que estavam falando. Eu era super magra, esquisita, mas na época eles gostavam das meninas assim, com esse padrão que era uma beleza não muito óbvia.  

Chegamos na agência e era véspera da primeira São Paulo Fashion Week, em 1996, e estava uma correria, todo mundo louco. Ninguém nem olhou na minha cara, fiquei lá sentada no sofázinho o dia inteiro. Até que veio uma pessoa e falou assim: "É, então, o dono da agência não vai poder te ver hoje, porque ele está muito ocupado. Você vai ter que ficar até amanhã". E aí mandaram a gente para um apartamento de modelo. 
O lugar era bem triste, para dizer o mínimo. Era sujo, tinha um monte de colchão na sala. Era escuro, porque as janelas davam para as paredes de um outro prédio. Então no primeiro dia, a minha experiência tinha sido inteira ruim, desde o momento em que chegamos na rodoviária, e ficamos quatro horas esperando a kombi que nos buscaria até a chegada nesse apartamento.
Lembro que na época a sensação era de que estava muito claro que aquilo não era pra gente. Eu nunca tinha sonhado em ser modelo, é lógico que eu admirava as meninas, eu admirava as misses que era o que eu mais conhecia, mas eu isso não tinha brilhado nos meus olhos. Então, era isso, não estava certo. Vamos voltar para Joinville. 

[trilha sonora] Mas, no final do dia seguinte, o dono da agência veio e falou: "Não, você vai ter que ficar. A gente vai começar o São Paulo Fashion Week daqui uma semana, é a primeira edição e a gente acha que você tem potencial. Você precisa ficar."  [trilha sonora] Eu fiquei, fiz desfiles nessa primeira edição e, a partir desse momento, começaram a aparecer trabalhos mais frequentes: eu voltava pra Joinville, aí recebia uma ligação e vinha para algum trabalho. Era muita ralação, mas a sensação era de que eu nunca seria uma super modelo, uma top model. Mas eu também já tinha envolvido tempo e energia demais para desistir sem ter ido até o fim, pelo menos o fim que me deixasse satisfeita. 
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Até que eu fiz um trabalho que mudou a minha carreira: a capa da Vogue Itália, em janeiro de 2000. Naquela época, era assim, se alguém falasse: "Qual o trabalho que uma modelo precisa fazer para mudar a vida dela?", a resposta seria a capa da Vogue ItáliaQuando eu fiz, foi uma grande realização, e de verdade mudou completamente o meu patamar como modelo. [trilha sonora] Eu estava recebendo um retorno do esforço, mas a sensação era também como se fosse sorte.
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Não que eu não tivesse ralado, porque eu ralei muito. Suei muito pra conseguir me dedicar a essa profissão, que era muito difícil para o tipo de família que a gente era, todos muito grudados e com um estilo de vida mais tranquilo. Aliás, minha família também teve que se sacrificar bastante. Mas ainda assim, quando cheguei lá, a sensação era de que faltava um fundamento. Não sei explicar. Era incrível ter chegado aqui, mas não tem um alicerce. Era como se já naquela época, finalmente uma grande modelo, eu sentisse falta de alguma coisa.
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Dos três filhos lá de casa, eu sempre fui a que tinha tudo resolvido, a que tinha certeza do que queria ser. Eu sempre soube que queria ser médica, e não teve nenhum momento em que eu decidi que não seria mais. Só que eu parei de pensar nisso, eu também parei de me questionar, ninguém falava mais nisso. A verdade é que eu sempre continuei me interessar pelo assunto. 
Lembro que, quando comecei a ter dificuldade pra me manter naqueles padrões absurdos de magreza da moda, ao invés de comprar as revistas que tinham aquelas dietas superficiais, eu comprava livros de nutrição. Eu queria entender como funcionava o metabolismo do corpo humano de uma forma mais profunda até porque essas pessoas que conseguem fazer uma dieta muito restritiva tem uma disciplina com a comida que eu nunca tive. Comer, para mim, sempre foi uma alegria, um carinho.  [trilha sonora]
Quando estava com 22 anos, comecei a ter um problema com depressão e entrei na terapia. Passei por alguns terapeutas e o último foi quando eu estava com 24 anos e voltando a morar no Brasil. Nessa época, eu continuava trabalhando bastante, mas comecei a me questionar sobre o que eu faria depois que terminasse a carreira como modelo.
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Não que viesse na minha cabeça a ideia de quando era adolescente, um sentimento de "aí, eu queria mesmo era ser médica". Se eu parava para pensar nisso, eu pensava: "Não, isso ficou para trás, seria uma loucura voltar para essa ideia agora, isso passou". Como que eu vou voltar para escola e estudar? Tinha essa nuvenzinha na minha cabeça, de que aquilo tinha passado, tinha ficado para outra vida, não para essa. 

Foi aí que o meu terapeuta, que sabia que eu gostava de medicina, falou: "Por que você não vai fazer um cursinho e vai fazer a faculdade que você queria fazer?". Aí ele começou a me irritar. Eu achava que esse homem estava doido, ou estava querendo me deixar animada, porque qual seria a chance de eu começar agora uma faculdade? E ele começou a me estimular: "Você se matricula no cursinho e vê o que acha". E, assim, de 29 pra 30 anos, realmente me matriculei em um cursinho. 

Eu lembro bem que liguei para os meus pais e falei: "Olha, eu vou me matricular num cursinho, vou prestar pra medicina no fim do ano. A chance de eu passar é minúscula, mas eu quero aproveitar isso como uma experiência, quero aprender no cursinho o que eu não fiz quando eu era mais nova, eu quero resgatar isso. Sem muitas cobranças". 
Meus pais e meus irmãos, na verdade, só faltou soltarem fogos de artifício. Acho que eles me conheciam de verdade e sempre souberam que era isso que me faltava, me deram um super apoio e até vieram para São Paulo um dia antes de eu entrar no cursinho, como se fosse para me levar no meu primeiro dia de aula na escola.  [trilha sonora]
Eu me lembro até hoje de ir caminhando no primeiro dia, bastante nervosa, pensando que todos os adolescentes do cursinho se juntariam e fariam um grande bullying com a minha pessoa. Mas eu cheguei e ninguém estava nem aí para mim, estava todo mundo completamente preocupado em passar no vestibular, todo mundo focado. Não é aquele

clima de escola, com todo mundo mais relaxado. Todo mundo está ali com um propósito, eu tinha o meu. 

[trilha sonora] Na primeira semana, me encantei com algumas matérias e com a sensação de voltar a estudar. Mas tinha desespero também, achei que nunca conseguiria aprender de novo matemática, química, eu não sabia nem o que anotar na aula. Nos primeiros dias, nem tirei a caneta da bolsa.
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Eu tinha me matriculado no intensivão, então era tudo dado muito rápido, como uma revisão. Eu lembro bem de, na segunda semana, pensar: "Olha, a chance de eu aprender isso aqui é minúscula. Eu vou sentar, escutar e aproveitar a aula". Mas na verdade, eu fui me redescobrindo como aluna. 
Tinham algumas aulas que eu não dava muita atenção na escola, como história, geografia, mas depois de ter viajado tanto, era diferente. Tinha morado em Paris, em Milão, então as aulas passaram a ser melhor do que assistir um filme, muito gostoso.
Fiz seis meses deste intensivão e, no final do ano, fiz algumas provas para ver como eu me sairia e realmente fiquei bem longe de passar. Mas eu gostei da experiência, gostei muito do cursinho e me animei. Decidi fazer um ano inteiro, para aprender algumas coisas de verdade. 
Isso era 2012 e as aulas começaram em março. Minha rotina era ficar a manhã toda estudando no cursinho e voltar pra casa à tarde para fazer algumas coisas de trabalho como modelo. Era um projeto meio solitário. Mesmo as minhas amigas não entendiam muito o que eu estava fazendo, porque era um mundo bem diferente do que até então vivia na moda. 
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Nessa época, eu morava sozinha e estava solteira, até que em julho conheci o meu marido, o Augusto. Falei pra ele que estava fazendo cursinho e para minha surpresa, ele achou o máximo e resolveu acreditar no meu projeto. 
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Aquilo me deu muito gás, porque eu não sentia mais que estava fazendo isso sozinha. Em seguida, eu fiz amizades com algumas colegas do cursinho e que viraram grandes amigas. Elas ficavam a tarde na biblioteca do cursinho estudando e eu passei a ficar lá também.

Chegou o final do ano e fiz as provas novamente. Conferi as primeiras que tinha feito e de novo não tinha ido bem. Foi frustrante, mas lembro que não cheguei a ficar triste, porque era um projeto meu e ninguém sabia, não havia cobrança por parte de ninguém. E eu tinha adorado a oportunidade de estudar mais velha as matérias de segundo grau, sentia como se fosse um presente. 

Continuei fazendo as provas e teve uma que eu achava que tinha ido melhor. Eu tinha a sensação de ter ido bem, mas não tinha nem corrigido mais, porque combinei com uma amiga minha do cursinho de não olhar mais o gabarito, porque só me frustrava. Mas ela insistiu que eu deveria conferir. E eu lembro até hoje desse dia: eu corrigindo essa prova e vendo que tinha acertado 94%. Ela olhou pra mim e falou: "Você passou, 94%, você passou". Eu falei: "Então, essa prova não era das mais difíceis. Eu acho que todo mundo deve ter ido bem". E ela: "Não, não, não, não é assim. Pode ter sido fácil pra você, mas não pra todo mundo. Eu acho que você passou". E aí foi um nervoso da expectativa de esperar o dia em que iria sair a lista. Saiu, e eu passei. Esse foi um dos dias mais felizes da minha vida, até hoje não acredito, fiquei em 37º lugar e foi muito legal. 

Sabe aquela sensação de quando fiz a capa da Vogue Itália, de que eu achava que era sorte? Agora era diferente. Quando passei no vestibular, aquilo tudo dependia de mim, a conquista tinha outro gosto. Me dá até vontade de chorar quando eu lembro desse momento. Eu já tinha conquistado muita coisa, já tinha a minha casa, eu vivia muito bem e acho que isso muda a visão e o jeito como você faz as coisas, tira um pouco a pressão. 
Minha emoção era de realmente ter conseguido fazer o que eu queria lá atrás, um sonho de infância que tinha desistido. E depois de toda essa loucura que foi a minha vida como modelo desde a adolescência, toda a distância da família, eu me emociono de ter voltado ao meu projeto original. Era um propósito de vida que era meu e foi deixado de lado por uma vida que eu gosto, que me trouxe muitas coisas mesmo, mas que era também uma vida com a qual eu não tinha sonhado. Por isso, eu choro quando lembro de passar no vestibular e trago muitos outros momentos emocionantes e transformadores de tudo que vivi desde então.  [trilha sonora]
Um momento fundamental foi quando começou o internato, que é como chamamos os dois últimos anos dos seis da faculdade de medicina, seria o que chamam de estágio

em outros cursos. Eu fiz o meu internato quase todo no Hospital Geral de Carapicuíba, na periferia de São Paulo, onde fiquei por dois anos, até o fim de 2019, quando me formei. 

Eu tive um internato muito legal e conheci o SUS a partir do olhar de médicos nota um milhão, e não vi aquele caos que muitas vezes esperamos. O SUS enfrenta sim dificuldades porque nosso país é grande e com muitas realidades distintas, mas é um projeto em sua essência maravilhoso. 
Nos postos de saúde e nos hospitais, a gente recebe pacientes em uma situação bem difícil, e não é só remédio que eles precisam. Em muitos casos, o simples fato de você ouvir o paciente e explicar pra ele como tomar uma medicação, já significa muito em lugares vulneráveis. Tem pacientes que você atende que não sabem ler, que você tem que mostrar a caixinha, às vezes desenhar, explicar como tomar e escutar. Escutar bastante. Não é só o tratamento, o último livro, o último estudo, a última medicação, é muito mais complexo do que isso e demanda muito o lado humano do médico, não só a capacidade de saber estudar. É preciso estar ali de peito aberto.  [trilha sonora]
Um dia, um paciente chegou de cadeira de rodas, era final de um plantão e estava todo mundo cansado. Ele tinha um ferimento na perna, era diabético. O ferimento estava infeccionado e iria ter que internar. O filho dele, que devia ter uns 20 anos, começou a chorar compulsivamente falando que ele não poderia internar o pai, porque naquela idade seria obrigatório um acompanhante. Ele falou que era só ele e o pai no mundo, não tinham ninguém, nenhum amigo, nenhum familiar, nem nada, e que ele tinha acabado de conseguir um emprego e não poderia faltar porque eles não tinham mais nada em casa, nem para comer, nem para beber. Eu pensei na hora: "Meu Deus do céu, o que a gente faz aqui é nada, o buraco é muito mais embaixo".  [trilha sonora]
Eu sonhava no início com a endocrinologia, tinha a ver com a experiência que tive durante a vida de modelo. Mas, depois de dois anos em Carapicuíba, vi que eu queria mais, não queria cuidar só dessa parte de um paciente, eu queria cuidar de uma maneira mais ampla. 

Duas professoras que eu tive me inspiraram muito e a alegria delas, além de tratar bem o paciente, de serem impecáveis em relação ao tratamento, a técnica, a ciência. Elas falavam com carinho, elas colocavam a mão no ombro pra escutar. Elas viraram as minhas musas e me deram uma referência fundamental da médica que quero ser, do propósito que busco na medicina. Eu conheci elas duas no internato e aquilo que eu imaginava, de um consultório bonito, num lugar bonito, meio que se desmanchou. Isso não é mais prioridade, eu quero ser, pelo menos, um pouco como elas. 

Uma rotina inteira em hospital, eu acho que talvez não seja possível, quero, na medida do possível, acompanhar de perto os meus filhos, um menino e uma menina, que nasceram durante a faculdade. Mas algum tempo em hospital eu quero sempre manter e tem a ver com essas professoras e com o quanto me emociono toda vez que lembro dos pacientes que tive em Carapicuíba. 
E, por eles, sempre vou querer tratar e estar perto de pacientes que precisam não só de medicação e ciência, mas também de um olhar humano. Se não tiver isso na minha rotina, eu não vou estar satisfeita, não vai ter valido a pena.  [trilha sonora]

Eu tive muitos privilégios pra poder realizar meu sonho de ser médica e tenho consciência disso. Então, eu penso muito que esse tanto de privilégio que tive tem que ter algum retorno pra a sociedade, não pode servir só para eu fazer uma foto bonita, contar uma história. Hoje, se alguém me pergunta o que eu faço, eu falo imediatamente que sou médica. Adoro ter sido modelo e a revolução que aconteceu na minha vida. Mas é tão gostoso poder falar, e eu falo: sou médica!
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Victor Stirnimann: O que é o sucesso? Nós todos crescemos ouvindo que sucesso é ter resultados e que resultados são esses? Em nosso tempo, quase tudo gira em torno da fama e da fortuna. Se você construiu o seu patrimônio, se você se tornou popular, se desperta a inveja dos outros, então, dizem, você chegou lá. E como esses são resultados que bem poucos alcançam, a maior parte das pessoas passa a vida imaginando que é isto mesmo. E que este é o destino maravilhoso reservado apenas àqueles que são especiais. Mas, de repente aparece alguém como a Ana Claudia, que experimentou tudo isso bem cedo e que teve a humildade ou maturidade de reconhecer que essas conquistas do mundo nascem de uma mistura bastante misteriosa de esforço e oportunidade, trabalho e estrela. E ela vem nos contar que esse talvez não seja o sucesso definitivo, mas apenas um degrau de uma escada, e que o próximo degrau ainda mais rico e fascinante é aquele onde ela vem aprendendo a servir. Em nosso tempo tão vaidoso parece incrível quando alguém confessa que sua verdadeira paixão é cuidar dos outros e que aprender é uma grande aventura. Felizes os que descobrem que sempre dá tempo de viver os sonhos, e que a escada não tem fim.
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Geyze Diniz: As nossas histórias não acabam por aqui. Acompanhe semanalmente nossos episódios e confira nossos conteúdos em plenae.com e no perfil @portalplenae no Instagram.  [trilha sonora]

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Para Inspirar

Sandra Chemin em “Mudar a rota é o melhor caminho”

Na sexta temporada do Podcast Plenae, Sandra Chemin conta como as surpresas no seu caminho construíram uma vida mais fiel ao seus desejos.

19 de Setembro de 2021


Leia a transcrição completa do episódio abaixo:


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Sandra Chemin: O primeiro momento “ahá” que eu tive na vida foi quando eu deixei a vice-presidência de uma multinacional para morar num barco. No mar, eu percebi que existem muitas outras formas de viver, de trabalhar e de ser que eu nem imaginava. Ampliar o olhar de mundo foi o primeiro passo pra eu encontrar significado pra minha vida e o meu trabalho. O segundo foi quando eu mergulhei dentro de mim e me perguntei: o que me move? O que é importante pra mim hoje? Quem eu sou?


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Geyze Diniz: A vida da empreendedora Sandra Chemin virou de cabeça pra baixo aos 30 anos. Num intervalo de 3 meses ela descobriu que estava grávida e que o pai de seu filho teria somente dois anos de vida por causa de um câncer. Para realizar o sonho do marido, Sandra trocou a vida executiva pela de velejadora.


Ela planejava retomar a carreira de publicitária depois de uma temporada a bordo num veleiro. Mas, a experiência foi tão transformadora que ela a levou para outros mares. Conheça a história de mudança de rota e de mindset de Sandra Chemin. Ouça no final do episódio as reflexões da psicanalista Vera Iaconelli para lhe ajudar a se conectar com a história e com o momento presente. Eu sou Geyze Diniz e esse é o Podcast Plenae. Ouça e reconecte-se.


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Sandra Chemin: Eu sou movida à inovação. Aos 21 anos, eu abri um estúdio de design com foco em editoração eletrônica. Isso era novidade no Brasil, em 92. Nós fomos os primeiros a trazermos Macintosh para o Brasil. Poucos anos depois, quando começou a se falar em internet, eu e meu sócio percebemos que aquela tecnologia ia mudar tudo. E a gente ainda nem tinha acesso à internet discada na época, quando a gente resolveu criar, talvez, a primeira agência digital do Brasil, a Hipermídia.


E foi um sucesso. A gente vendeu a agência para a WPP, que na época era a maior rede de propaganda do mundo. E nessa operação, eu me tornei vice-presidente da Ogilvy, uma das agências da WPP no Brasil. Aos 28 anos, eu cuidava da operação de internet da Ogilvy na América Latina, com 250 funcionários em 5 países.


Com 30 anos, eu já tinha ganho um monte de Leão de Cannes, que é o maior da publicidade mundial. Tinha uma super visibilidade na mídia, uma carreira promissora e uma situação financeira muito boa pra minha idade. Mas o sucesso profissional tinha um preço alto. Eu levava uma vida super acelerada. Viajava, pelo menos, duas vezes por semana para fora de São Paulo, 16 vezes por ano pro exterior. Meu apelido na época era Ensandrecida. 


Até que dois acontecimentos me fizeram repensar o meu modo de viver. 


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O primeiro foi uma gravidez não planejada. Eu tinha uma relação super bacana com o Lucas, mas era uma relação recente. Nós nem morávamos juntos na época que eu engravidei. E eu ainda estava processando a gravidez quando o Lucas recebeu um diagnóstico de um câncer de próstata. Ele tinha 28 anos e, segundo os médicos, ele só teria dois anos de vida. Num intervalo de três meses, eu soube que estava grávida e que o pai da minha filha tinha uma doença grave e incurável. Isso foi um baque.


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Um dia, eu me lembro, eu estava com o Lucas na banheira do loft onde eu morava e eu perguntei: “O que você quer viver nesses dois anos?”. Eu era muito realizada, mas eu sentia que ele tinha muitos sonhos guardados na gaveta. "Um deles é escrever um livro", ele me disse, "mas eu acho que talvez eu não tenha vivido histórias suficientes para contar. O segundo é morar a bordo de um veleiro”. 


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Eu acredito que algum momento da vida, entre 35, 40 e 45 anos, todo mundo em algum momento vai se questionar sobre as escolhas que fez e faz, isso é inevitável. Mas para mim, esse questionamento foi antecipado. Hoje eu vejo que a vida me deu de presente a oportunidade de refletir sobre o estilo de vida que eu estava levando. Hoje eu vejo isso como um presente. 


E o detalhe mais curioso dessa história é que, quatro meses depois do Lucas receber esse diagnóstico de câncer, um médico descobriu que ele não tinha câncer, e sim uma infecção. O diagnóstico estava errado e a vida podia continuar do jeito que estava, mas a verdade é que dentro de nós algo tinha mudado. Ali começava o fim da Ensandrecida. 


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Aí eu pensei no sonho do Lucas e lembrei que as minhas melhores memórias de infância foram no mar. Meu pai, desde que eu nasci, tinha um barco a motor e a paixão dele era a pesca submarina. Eu lembro que desde os meus 5 anos de idade, eu passava horas com ele fazendo snorkel. E eu curti muito a ideia de poder oferecer pra minha filha, aquela experiência que o meu pai tinha me proporcionado.

Então eu disse pro Lucas: “Eu não faço a menor ideia se eu vou querer morar a bordo, se eu vou saber velejar, mas eu topo fazer uma experiência de três meses e ver no que dá”. 
Pedi demissão e, eu lembro até hoje quando eu reuni a minha equipe numa sala grande da Ogilvy pra contar que eu estava deixando a vice-presidência da agência pra passar uma temporada num veleiro, ninguém acreditava. De fato, era uma mudança radical.


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E nós deixamos a nossa casa montada, o carro na garagem e fomos pra Inglaterra. Nós compramos o Santa Paz, um barco de 39 pés e começamos a velejar pela Europa. 


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Confesso que não foi fácil. Eu não sabia cuidar de filho, de casa, não sabia velejar, muito menos fora do Brasil. Os três meses que eu tinha planejado viver no barco passaram voando. Foi um período de aprendizado, sem descanso. Mas foi o suficiente pra ver que eu podia ficar um ano. Então nós resolvemos estender o período no barco para o que na época eu achava um ano sabático, que era um tempo enorme.


Muitas pessoas têm uma ideia idealizada do que é morar num barco. Acham que as coisas acontecem magicamente, que a gente fica tomando sol e caipirinha no convés. Não é nada disso. O Lucas e eu fazíamos todo trabalho sozinhos, sem nenhum marinheiro. Era cozinhar, limpar, navegar, cuidar de filho, só nós. E quando a gente tava começando a curtir aquela vida, o período de um ano acabou. E aí a gente pensou: "Puxa, vamos ficar mais um ano?."  


E nesse segundo ano a bordo, eu acabei engravidei da Júlia, em Menorca, na Espanha. E aí, nesse momento de gravidez, a gente pensa: "Poxa, eu quero ter a família perto, onde eu quero que minha filha nasça." E nós resolvemos voltar para o Brasil. A Júlia nasceu em São Paulo, e o Lucas, com medo da Ensandrecida voltar, sugeriu que a gente fosse morar em Paraty, no sul do Rio de Janeiro.

Eu achei que era bom pra primeira infância das nossas filhas uma temporada na praia e disse sim. E aí aconteceu algo muito comum em cidades menores no Brasil. Não tinha nenhuma escola com os nossos valores, uma escola boa pras meninas. E aí, mesmo sem formação pedagógica, a gente reuniu outras 6 famílias na nossa casa para conversar sobre que valores a gente gostaria de modelar pros nossos filhos e que tipo de educação seria boa pra eles.


E, sem nenhum apoio do governo, nós fundamos uma escola Waldorf, onde metade dos alunos paga e metade não paga. Nós queríamos uma escola pro Brasil real com todas as dificuldades que vocês podem imaginar.


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E durante o processo de concepção da escola, eu recebi uma ligação de um headhunter com um convite para eu ser gerente-geral do Google no Brasil. O Google era a minha referência de inovação né, e aquele cargo era a minha cara. Normalmente, eu marcaria um almoço com o headhunter, ia ouvir a proposta, conversar sobre possibilidades.

Mas, daquela vez, quando eu percebi, eu tinha dito “não” por telefone. E eu só me dei conta disso ao desligar. De alguma maneira, o meu inconsciente já tinha sacado que trabalhar no Google traria de volta a Ensandrecida. E aquele modo de viver não cabia mais em mim. 


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Mas daí eu me perguntei: “Pera lá. Se eu disse ‘não’ pra ser gerente-geral do Google no Brasil, o que que eu quero?”. E essa reflexão me causou muita angústia porque eu não tinha aquela resposta. Naquela época, além da escola, eu já tinha a minha consultoria e já trabalhava também como conselheira de empresas, dividindo meu tempo entre Paraty e São Paulo.


Mas a verdade é que o trabalho sempre foi uma parte muito importante da minha vida, é a minha forma de agir no mundo. Então quando eu recusei aquela oferta, eu comecei a fazer uma investigação interna, pra entender quem eu sou hoje, o que que é importante pra mim.


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Quando eu saí da Ogilvy, eu achei que tava fazendo um sabático e que depois eu voltaria no mesmo ritmo. Depois eu achei que tava fazendo uma transição de carreira. Mas a verdade é que no meu processo de autoconhecimento, eu descobri que eu tava me transformando o tempo todo. A vivência no barco e em Paraty me ensinaram a navegar transformações. E eu acredito que essa é uma das principais habilidades de qualquer pessoa hoje em dia, porque a gente nunca mais vai parar de se transformar.

Eu acredito que assim como o celular nos avisa de que tá na hora de atualizar a versão, a gente tem que se atualizar de tempos em tempos. Tem que parar para recalibrar os valores, entender o que me move hoje, o que é importante pra mim. Será que algo mudou? Quando eu compreendi esse processo, eu entendi que a minha missão era ajudar pessoas e empresas a encontrar significado no que elas fazem, na forma como elas vivem e na maneira como atuam no mundo. 


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Eu disse ‘sim’ a três meses num barco, e sem querer mudei a minha vida inteira. Eu disse ‘sim’ a um ano em Paraty, e criei uma escola que existe há 15 anos na cidade até hoje. Tudo na minha vida eu aprendi fazendo, e é isso que eu recomendo pras pessoas que me procuram. Antes de tomar uma decisão, de mudar de carreira, de montar um negócio, de começar um estudo, converse com alguém que leva a vida que você quer levar antes de tomar uma decisão. Isso se chama prototipagem e essa é uma ferramenta de inovação. Isso é prototipar a vida. Você vai experimentar algo novo? Comece com um pequeno passo. Veja se você gosta. 


Eu aprendi que eu primeiro escolho a vida que eu quero levar, pra depois desenhar um trabalho que ajuste a esse modelo. A gente costuma fazer o contrário: a gente primeiro escolhe o trabalho e depois tenta encaixar a vida ao redor. O que acontece é que nessa ordem, muitas vezes a gente não vai viver as experiências que quer viver. Eu aprendi que, se existe coerência entre quem eu sou, o que eu acredito e o que eu faço eu sou feliz. Se não existe coerência, eu não sou feliz. É simples assim. 


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Vera Iaconelli: Pra falar da Sandra Chemin, eu gostaria de lembrar que o sobrenome dela em francês significa caminho. E acho que caminho é uma questão chave aqui, porque a Sandra é uma dessas pessoas excepcionais, extremamente inteligentes, que se destacam rapidamente. Mas que por isso mesmo correm o risco de ficar capturadas em escolhas muito convencionais. O grande risco de uma pessoa como a Sandra é ficar siderada pelo sucesso, sucesso rápido e bem remunerado. O que faz com que muitas vezes a pessoa pare de se perguntar sobre o próprio desejo.


O caso da Sandra é exatamente o oposto. Ela vai, a cada momento, perguntando pra si mesma, sendo muito honesta na resposta, sobre o desejo dela. E aí fica a dica de uma experiência central que ela traz na história dela, que é o encontro muito precoce com a ideia da morte. Na hora que a Sandra pergunta uma pergunta que talvez coubesse para nós todos os dias: o que que a gente quer fazer da nossa vida, uma vez que a morte é garantida, ela responde buscando nela o desejo.


Inspirada pelo companheiro dela, ela começa um longo percurso de velejar, de criar novos caminhos, de seguir as forças dos ventos, que vão levando ela pra diferentes possibilidades, diferentes conquistas, diferentes marcas que ela vai deixando em cada lugar que ela passa. Então, acho que a grande lição da Sandra é nos fazer ver que a gente tem que consultar acima de tudo o nosso desejo e nos distanciarmos dos caminhos pré-programados por nós mesmos ou pelos outros.


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Geyze Diniz:
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