Para Inspirar

Ana Lucia Villela em “A criança deve habitar em todos nós”

Na quinta temporada do Podcast Plenae - Histórias para Refletir, a empreendedora social Ana Lucia Villela une infância, propósito e construção de mundo.

27 de Junho de 2021


Leia a transcrição completa do episódio abaixo:

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Ana Lucia: Quando eu estava na quinta série, eu fiz um intercâmbio que mexeu comigo. Eu tinha 11 anos e eu fui passar um mês nas Filipinas. Fiquei hospedada na casa do sobrinho da Imelda Marcos, que era a primeira-dama do país. Um dia, a gente foi almoçar na casa dela, era um palacete gigantesco. Ela morava num condomínio fechado com um muro bem alto do condomínio. Eu me lembro da cena da chegada nesse condomínio como se fosse ontem. Eu estava sentada no carro e, pela janela, eu vi do lado de fora do muro uma pilha enorme de lixo com várias criancinhas bem pequenininhas procurando alguma coisa pra comer. Eu já tinha visto pobreza no Brasil, claro. Mas, uma discrepância tão escancarada entre a riqueza e a miséria, separadas por um muro, era uma cena inédita pra mim e ficou gravada na minha memória. 

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Geyze Diniz: Pedadoga, dedicada às causas sociais e a tudo que impacta direta ou indiretamente a vida da criança, Ana Lucia Vilela é cofundadora e presidente do Instituto Alana. Com vontade e trabalho, Ana Lucia teve um despertar precoce para trabalhar por um mundo melhor. A partir de um acontecimento pessoal, ela conheceu a dor da vulnerabilidade que tantas crianças sentem no Brasil e no mundo. Desse sentimento nasceu uma missão: honrar e proteger a infância. 

Conheça a linda história, cheia de propósito, de Ana Lucia Vilela. Ouça, no final do episódio, as reflexões do rabino Michel Schlesinger para te ajudar a se conectar com a história e com você mesmo. Eu sou Geyze Diniz e esse é o podcast Plenae. Ouça e reconecte-se. 

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Ana Lucia: Meus pais morreram num acidente de avião quando eu tinha 8 anos. Ainda estavam procurando os corpos quando eu percebi uma movimentação estranha e escutei a notícia pela televisão, atrás de uma porta. Demorei para absorver aquela informação  e perguntar : “Escutei isso na TV. É verdade?”. E foi assim que eu fiquei sabendo que eu perdi  a minha mãe E o meu pai ao mesmo tempo.

No imaginário da criança, tem aquele medo de ficar desabrigado, sem comida, ir morar num orfanato, ter uma madrasta malvada. Eu me lembro de quando eu senti essa sensação assustadora. Aí eu procurei me tranquilizar, dizendo pra mim mesma: “Calma, tá tudo bem, eu não vou passar por isso. Eu tenho vó, vô, tio, tia. Eu tenho casa, eu tenho escola”. Mesmo sendo tão pequena, eu tinha noção de que a grande maioria das crianças no mundo eram muito, muito mais vulneráveis do que eu. E ainda assim, eu senti um medo terrível.

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Olhando pra trás, eu percebo que dessa sensação de fragilidade nasceu a minha vontade de proteger crianças. Esse desejo virou um propósito, que pauta a minha vida.

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Eu nasci numa família ligada à filantropia. Estudei numa escola católica que também tinha esse olhar. Minha tia Milú, criava um projeto de voluntariado no Brasil que havia sido referência até pra ONU. Ao mesmo tempo, a minha tia Helena, que me criou, era voluntária em um projeto social do meu colégio e às vezes eu ia com ela na Favela do Jaguaré, em São Paulo. Eu ficava com as crianças, enquanto ela fazia atividade com as mães. Meu irmão Alfredo e eu, a gente conversava às vezes sobre a vontade de desenvolver algum projeto relacionado à infância quando a gente crescesse.

Eu terminei a escola e quando eu entrei na faculdade, escutei um discurso que eu já tinha ouvido outras vezes e mexia comigo num nível que eu não sei explicar. Era assim: “Se uma criança não foi bem alimentada, ela não vai conseguir se desenvolver, não vai conseguir estudar, não vai fazer um bom trabalho, não vai ter dignidade”. “O adolescente se envolveu com drogas? Ah, esquece!” Era como se não valesse a pena apostar em pessoas que passaram por alguma dificuldade na vida. 

Eu não engoli essa narrativa de que gerações inteiras estavam totalmente perdidas. Tinha raiva dessa fala e queria provar que esse pensamento era errado. Um dia, numa aula com o Paulo Freire, na faculdade, eu tive a chance de dividir com ele essa minha inquietação. Ele respondeu pra mim algo assim: “Concordo com você. Toda vez que eu fiz essa aposta deu certo. É só você ir lá que vai dar certo. Não desista, você tem razão”.

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Nessa mesma época, eu recebi um telefonema do meu irmão. A gente havia herdado uma área enorme na Zona Leste de São Paulo. Ele me disse assim: “Ana, eu acho que esse terreno foi ocupado, o caseiro não vem pegar o salário dele já faz um tempo. Será que não é um lugar pra gente pensar  num projeto social? Deve ter um monte de problema, um monte de gente sem casa . Deve ser um lugar sem esgoto encanado, sem água, sem energia, sem escola”.

Eu chamei um amigo e a gente foi de carro até lá, pra essa comunidade chamada Jardim Pantanal. Eu fiquei impressionada quando cheguei. Não dá para saber o tamanho exato da ocupação, mas tinham milhares de moradores. A gente saiu perguntando quem era a liderança comunitária. Sentamos pra conversar com essas pessoas, tomamos café e eu senti que ali eu poderia mesmo criar um projeto. Eu me identifiquei pra eles como estudante. Demorei alguns anos pra dizer que eu era uma das donas do terreno. 

Comecei a ir na ocupação nos fins de semana. A ideia era dar ferramentas às lideranças comunitárias e ajudá-las a fazer melhorias na ocupação. Com o envolvimento da comunidade, a gente ergueu um galpão pra fazer as reuniões sobre como regularizar o terreno, construir escola, enfim, tudo o que fosse necessário.

Foi assim que nasceu o Instituto Alana, batizado com as minhas iniciais e do meu irmão. Naquele primeiro projeto, eu comprovei a teoria de que as pessoas só precisam de oportunidade. Eu vi que se a gente pegasse uma criança que não soubesse ler, podia ter 12 anos, era só ensinar. Ensina a primeira letra, que ela vai conseguir se desenvolver depois. Todos os dias eu tinha uma demonstração de que as pessoas não são casos perdidos. Eu ficava totalmente deslumbrada com as histórias e ia contar pra todo mundo o que estava acontecendo. Eu descobri na prática que todo ser humano é criativo e tem potencial. Ele só precisa que alguém acredite nele.

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Eu carrego essa experiência do Jardim Pantanal no coração, porque ela abriu um mundo pra mim. Ela me fez enxergar um tripé fundamental pro trabalho do Alana hoje: educação, comunicação e advocacy. E a nossa causa, no Alana, é a criança, é honrar a infância.

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A partir da minha experiência de quase 10 anos como professora em escolas públicas e privadas, surgiu um segundo projeto do instituto. Eu conhecia dos alunos pobres aos da classe AA. E percebi algo em comum a todos eles: a forte ligação com o consumo e o pouco contato com a natureza. Eles tavam mais preocupados com o ter do que com o ser.    

Eu via em comunidades paupérrimas as crianças implorando pra mãe por uma Barbie. Aí a mãe se matava pra comprar a boneca, e logo a menina queria outra coisa. Os meninos entravam pro tráfico pra ter o tênis da época. Nas escolas particulares não era diferente. As crianças sabiam reconhecer os logotipos das empresas antes de saberem o seu sobrenome, ou o nome da árvore na frente da casa dela ou de uma fruta ou legume que deveriam fazer parte da sua dieta alimentar. Quase nunca olhavam o céu. 

Eu pensava: “Ninguém tá vendo isso? Não é possível! A gente tá formando um exército de consumidores, não de cidadãos” Se o mundo for pra esse caminho, a humanidade já era!” E assim nasceu o projeto Criança e Consumo, dedicado a debater a publicidade dirigida ao público infantil.

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Quando eu me casei com o Marcos, eu convidei ele pra dividir esse propósito de vida comigo.  Juntos a gente criou a Maria Farinha Filmes, produtora que acredita no poder transformador de uma história bem contada. O Alana, que começou em São Paulo, se espalhou pelo Brasil, avançou pra América Latina e, quando a gente viu, tava no mundo inteiro.

Não apenas com os filmes, produzidos pela Maria Farinha, mas com vários projetos, como a plataforma Videocamp, ou o Criativos da escola, Criança e Natureza, o Tinis, Rainforest Xprize , o Alana Down Syndrome Center na MIT, enfim, muito projetos e que perseguem um melhor viver com o foco na criança. Dessa criança que pode ser a brasileira, mas que pode ser africana, pode ser asiática. A criança para um mundo melhor não está presa em fronteiras. 

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O Alana foi crescendo totalmente antenado com o que tá acontecendo ao redor do mundo e muito pouco preso ao planejamento estratégico, a metas tri-anuais. Por trás de todos os projetos está o propósito de honrar a criança. Eu tenho muito orgulho de ter juntado um time de pessoas unidas por esse propósito, trabalhando pelos direitos da infância e pelo meio ambiente, porque são duas causas que andam juntas. A gente não tem funcionário, a gente empreendedor, sócio. Sócio do mesmo sonho.  A gente tem uma lista de conquistas palpáveis do Alana, mas pra mim a maior de todas é colocar a prioridade na infância como a grande pauta. 

Tudo que afeta o mundo, afeta muito mais a criança. Por isso, o meu desejo é que o mundo entenda que é preciso levar o público infantil em consideração antes de criar qualquer coisa que seja. Porque se aquilo for bom pra criança, vai ser bom pra todos nós. Eu posso dizer que antes de planejar uma cidade, uma série, um livro, um site , um web, qualquer coisa, a gente devia pensar em como colocá-la no mundo com um design centrado nas crianças. 

Imagine se a internet tivesse começado pensando também na criança como usuária? Tudo seria tão mais fácil. Agora a gente não estaria discutindo a privacidade de dados, os efeitos do tempo de tela pra saúde, o impacto mental dos games, o estímulo ao consumo… Uma internet segura pro público infantil é segura pra qualquer um. A mesma lógica vale pro lançamento de qualquer produto ou serviço. Se o mundo fizer esse exercício permanentemente, de lembrar que as crianças existem e merecem respeito, a gente vai construir uma sociedade muito melhor.

Eu não gosto de falar da criança na perspectiva de futuro. A criança é agora. O que a gente vai fazer por e com elas é agora que importa. Porque é essa formação que vai fazer com que ela seja uma melhor cidadã. E o que é uma sociedade interessante senão um conjunto de pessoas interessantes? 

Quando eu perdi os meus pais, aos 8 anos, eu não podia esperar que alguém se preocupasse comigo depois.  A minha necessidade era urgente. Eu tive a sorte de contar com adultos que pegaram na minha mão e me ajudaram a ser quem eu sou hoje. E é isso que eu quero fazer pelas outras crianças. O meu propósito está totalmente entrelaçado com a minha vida. 

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Miguel Schlesinger:  Existem duas questões urgentes e entrelaçadas na história de Ana Lucia: uma é a infância, a outra o meio ambiente. De fato, as crianças não são o futuro, elas são o presente. O que acontece nessa fase da vida, de bom e de ruim, deixam marcas para sempre. Por isso, cuidar da infância é para hoje. Podemos dizer a mesma coisa em relação a preservação da natureza. 

A gente costuma projetar o impacto ambiental das nossas ações para daqui a 100, 300 anos. Esse horizonte é tão distante e inalcançável que parece não ter sentido agir agora. Esse pensamento está errado. A gente já paga um preço alto por descuidos do passado e não pode usar a desculpa do futuro para não colocar toda a energia necessária para cuidar das crianças e do planeta hoje. São duas questões que a gente, como sociedade, muitas vezes negligencia e adia. Só que a gente tem que saber que as consequências desse adiamento são irreversíveis, num caso e noutro. 

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Geyze Diniz: Nossas histórias não acabam por aqui. Confira mais dos nossos conteúdos em plenae.com e em nosso perfil no Instagram @portalplenae. [trilha sonora]


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