Para Inspirar

Celso Athayde em “A busca diária para a melhor versão de mim”

Fundador da CUFA, Celso Athayde conta no Podcast Plenae como fez a exceção se tornar regra para milhares de brasileiros

18 de Outubro de 2020


Leia a transcrição completa do episódio abaixo:

[trilha sonora] Celso Athayde:  Eu quero ser o cara mais rico do mundo. Mas, quando eu falo de riqueza, não é o dinheiro pelo dinheiro. Não é o dinheiro pelas coisas que ele pode comprar, nem o dinheiro pelo poder que ele pode me dar. É pela possibilidade de transformar. Porque eu acredito no meu valor. Mas meu projeto de vida, ele é coletivo. [trilha sonora] Geyze Diniz: Tive oportunidade de conhecer o Celso durante a pandemia e minha admiração por ele nesse período só aumentou. Sua capacidade de mobilizar e inspirar os outros é contagiante. No final do episódio, você ouvirá reflexões do doutor Victor Stirnimann para te ajudar a se conectar com a história e com você mesmo. Eu sou Geyze Diniz e esse é o Podcast Plenae. Aproveite este momento, ouça e reconecte-se. [trilha sonora] Celso Athayde: Eu sou do Rio de Janeiro, da Baixada Fluminense, de uma cidade chamada Nilópolis, onde tem a Beija-Flor. Com seis anos de idade eu fui morar na rua, porque meus pais se separaram. Minha mãe e meu pai eram alcoólatras, brigavam todos os dias. Eu nem me lembro direito dessa época. Só consigo lembrar das brigas e que a gente morava numa favela no bairro do Cabral. Quando minha mãe resolveu ir embora de casa de verdade, eu e meu irmão fomos juntos com ela. Como minha mãe não tinha pra onde ir, a gente foi pra debaixo de um viaduto em Madureira na expectativa de que na semana seguinte a gente ia dar um jeito. Só que esse jeito nunca foi dado e passamos esse tempo ali, na condição de pedintes.  [trilha sonora] É claro que ninguém deveria morar na rua, mas foi ali que eu vivi a minha primeira experiência que iria mudar minha vida.  [trilha sonora] Eu conheci um cara que morava na rua também, como eu, e que dizia que antes de estar nessa situação, ele era empresário. Ele tinha tido um emprego, uma casa com piscina, uma família, escola pros filhos, viagens pro exterior... Pra muita gente, a história dele era a de um cara que perdeu tudo, mas eu enxerguei outra coisa ali. Eu enxerguei o cara que já teve tudo. E se ele estava ali, eu comecei a acreditar que comigo podia acontecer o inverso. Se ele perdeu tudo, então eu poderia conquistar tudo. Aí eu passei a sonhar com essas coisas. Eu passei a ter esperança e aumentar a régua da expectativa do que eu podia alcançar. [trilha sonora] Algum tempo depois, eu tinha mais ou menos 13 anos, uma enorme enchente acabou fazendo a gente sair do viaduto. Então fomos remanejados para um abrigo público  chamado Pavilhão de São Cristóvão e, de lá, para a Favela do Sapo, em cima do Camará, onde fui criado. Lá, conheci um outro cara super interessante, infelizmente ligado ao tráfico, um dos fundadores do Comando Vermelho. As histórias dele sobre o crime não me seduziam, mas suas ideias sobre a revolução social sim. Eu sentia que não queria fazer parte daquilo que ele fazia, mas queria fazer aquilo que ele dizia. E sempre que ele me falava de fazer contato com pessoas de fora da favela e abrir outras possibilidades, isso sim, alimentava em mim um jeito de pensar que marcaria para sempre o meu jeito de ser e de trabalhar.  Pensando nisso, fui trabalhar como camelô em Madureira e então reencontrei o viaduto onde eu havia morado, já com essa crença da possibilidade de uma transformação social e pessoal dentro de mim. Comecei, então, a organizar um baile de charme, um ritmo que bombava na favela e esse baile começou a ficar famoso. Nessa época, comecei a organizar também alguns encontros, que a gente chamava de Informe. A gente se encontrava em um espaço da favela em que as pessoas pudessem falar qualquer coisa que estivessem pensando. Alguém levantava um tema e a gente então passava um sábado inteiro conversando sobre aquilo. Aparecia de tudo: cinema novo, Tropicália, energia nuclear... Não importava o assunto, a gente estava ali para buscar algum tipo de identidade e não, necessariamente, para aprender algo. [trilha sonora] Foi assim que, em 1998, eu me encontro com o rap, com os Racionais MCs, que trouxeram outra energia contestadora para a história. Esse momento é importante porque os Racionais me ajudaram a organizar na minha cabeça uma série de sentimentos que eu já tinha, mas que estavam embaralhados e desconectados ainda. Uma vez que eu estruturei essas emoções, elas se desdobraram em ideias e pensamentos sobre o que realmente é importante pra mim. Isso me fez entender que eu era preto e ser preto era pertencer a algo maior. Isso me fez entender que o que eu precisava pra mim e pras pessoas à minha volta era, na verdade, uma jornada coletiva. Isso me fez entender onde eu estava, onde eu queria chegar e - principalmente - como eu poderia chegar. Isso é muito grande. Nessa mesma época eu conheci o rapper MV Bill. Ele fazia parte do movimento hip hop e também de vários grupos, e estava começando a tentar fazer algumas ações com os Racionais. Então me tornei empresário dos dois, tanto dos Racionais como do MV Bill, e fizemos vários shows. Assim nasceu a CUFA, da ideia de transformar nosso inconformismo em atitude, em transformar o discurso do rap em ações práticas. Porque eu percebi que se eu não era feliz em ser quem eu era, se eu nunca aceitava o destino que eu achava que planejaram pra mim, então era preciso mudar. Esse espírito era tão forte que ficou na organização mesmo depois de eu deixar de fazer parte dela formalmente. A CUFA é, como sempre foi: a tentativa de continuar democratizando o conhecimento, mas também levar para os territórios um estímulo e um sistema para pessoas conseguirem transformar os seus discursos em ações. Em realizar a partir do que elas pensam, e não apenas reproduzir algo que ouviram de alguém por aí. Quero que as pessoas se tornem responsáveis por si mesmas, que tenham a insatisfação que eu sempre tive com a situação em que estou e que me faz o tempo todo querer melhorar.  [trilha sonora] Eu até lembro que minha mãe sempre dizia: "Filho, tu quer fazer tudo ao mesmo tempo, deixa de ser olho grande, rapá”. Mas ela também sabia que eu sempre precisava ir para o ponto seguinte. Essa vontade de alterar o cenário em que eu vivo está no centro da CUFA. Cada sonho que eu materializo não abre somente espaço para eu sonhar com outras coisas, abre principalmente espaço para outras pessoas sonharem com aquilo também. É assim que vou seguindo, caminhando, trilhando, buscando novos objetivos. Porque eu quero que cada vez mais gente tenha voz no caminho, que mais gente mude de vida. Queremos conscientizar a base da pirâmide na potência que ela tem. Fazemos isso por meio de oficinas de capacitação profissional e ações que elevam a autoestima da periferia e das favelas. Não queremos deixar ninguém para trás e, por isso, abraçamos tudo que existe na favela, tudo que existe nas periferias. Por isso, q​uanto mais pessoas da CUFA falarem, mais histórias inspiradoras a gente constrói, mais vidas são mudadas. E assim temos pessoas como Preto Zezé, do Ceará, que hoje é o presidente global da CUFA empossado em Nova York, na sede da ONU. E muitas outras pessoas têm espaço e falam. A divisão de poder e de vozes, sempre foi uma marca que eu achei legal em mim, uma característica minha que eu levo para todas os movimentos que eu faço e também para minha vida. ​Foi com essa estratégia que expandimos e hoje atuamos em todos os estados brasileiro, no Distrito Federal e em mais de 15 países. Esse processo fez a gente entender que se aumentar o número de vozes era legal, aumentar o número de ritmos era mais importante ainda. Por isso, apesar de estarmos com o rap há 20 anos, hoje tem gente que trabalha na CUFA e nem de hip hop gosta. Criamos projetos que trabalham com cultura de maneira ampla e também com educação, lazer e esportes. Nossas ações são para a favela entender que ela é importante, não importa o caminho. E tudo isso depende de dinheiro, sim. Quando a gente monta ações na CUFA que trazem dinheiro, conseguimos investir muito nas favelas, financiando organizações e a própria instituição. Esse pensamento me levou a deixar a CUFA para trabalhar em outra frente e formar a Favela Holding, que hoje tem 20 empresas. A grana que conseguimos lá, uma parte fica na própria holding e outra parte repassamos para a CUFA em forma de doação, para que ela possa desenvolver suas ações de forma sustentável. Eu chamo isso de "movimento social por vias econômicas". Acredito em mudar a realidade de uma população investindo em crescimento econômico e na distribuição de renda. O dinheiro não traz a felicidade direta, mas traz a autonomia. E só quem tem autonomia poderá ser feliz. É essa a mentalidade e a forma de trabalhar que hoje estou sistematizando para criar um documento que sirva para outras pessoas que também queiram atuar por uma transformação coletiva. Minha vontade é chamar organizações sociais que existem por aí e mostrar para elas o que fizemos e como é que elas podem ser nacionais também. Eu não quero o monopólio do bem, ao contrário, quem quer o monopólio do bem só vai conseguir fazer o mal. [trilha sonora] Hoje, com 57 anos, eu sigo insatisfeito com o lugar onde estou e com o que eu construí.  [trilha sonora] Mas insatisfação não é sinônimo de infelicidade. O fato é: eu não consigo ficar dormindo esperando o tempo passar, sabendo que tem uma guerra lá fora e com milhões de pessoas precisando de nós. Por isso, sigo buscando, agora na Favela Holding, as mesmas coisas que busquei a minha vida inteira, que foi liberdade, dinheiro, uma fonte de sobrevivência e independência. Criar bases para as pessoas deixarem o lugar de invisibilidade e serem protagonistas das suas próprias histórias é a nossa grande meta, é a nossa missão. Os invisíveis são invisíveis, então cabe às pessoas que têm fala pública a responsabilidade de ajudar a mudar essa história. Por isso, falo com todo tipo de gente, de todas as realidades e contextos, com empresas, políticos e com o máximo de pessoas que eu posso articular. Tenho como princípio que transitar é o nosso plano de paz, sem nunca abandonar quem eu sou, sem nunca pensar no meu sucesso ou no sucesso da CUFA como as exceções do lugar de onde eu vim. Mas em transformar isso em regra. E por esse projeto eu não paro de trabalhar nunca.

[trilha sonora]

Victor Stirnimann: Esta história é uma autêntica jornada do herói. Para quem conhece os mitos, está tudo ali. Um começo inocente exposto a perigos e desafios que poderiam representar o fim da linha ou mesmo um mergulho sem volta no lado mais escuro da alma. Mas o herói é aquele que está sempre aprendendo e que sempre põe em prática aquilo que aprendeu. Isto exige humildade, desapego, mas leva um super-poder. Para alguém assim, cada pessoa que cruza seu caminho se torna um professor. Ouvir o Celso é perceber como ele se tornou um líder e um exemplo apesar das dificuldades. Ele teve encontros com pessoas que foram abrindo seus olhos para horizontes cada vez maiores e criou novas metas e iniciativas a partir dali, com a coragem de quem tem muito pouco a perder e com o coração alimentado de ideais, que é a marca registrada de todas as grandes almas. Ideais que não deixam esquecer que a batalha de um é a batalha de todos e que a verdadeira razão de ser do herói é a transformação do coletivo de onde ele partiu. Porque a mensagem maior de toda sabedoria é sempre a mesma: a vida é uma grande aventura. Estamos todos aqui para fazer descobertas, para nos expressarmos, para evoluir e transformar. Por isso, não importa se você conhece os mitos, os mitos conhecem você.

[trilha sonora] Geyze Diniz: as nossas histórias não acabam por aqui. Acompanhe semanalmente nossos episódios e confira nossos conteúdos em plenae.com e no perfil @portalplenae no Instagram.  [trilha sonora]

Compartilhar:


Para Inspirar

Tamara Klink em "A minha viagem despertou travessias em outras pessoas"

A oitava temporada do Podcast Plenae está no ar! Confira a história da navegante Tamara Klink. Aperte o play e inspire-se!

22 de Maio de 2022


Leia a transcrição completa do episódio abaixo:


[trilha sonora]

Tamara Klink: Eu sabia, racionalmente, que a ideia de atravessar o Atlântico sozinha não era exatamente a melhor do mundo naquela hora. Eu não tinha a experiência necessária para uma aventura desse porte, nem dinheiro. Meu barco era velho, pequeno, não exatamente super seguro e o trajeto era bem longo. Se eu falasse pra minha mãe, eu com certeza ia desistir, porque ela ia me transmitir os medos inevitáveis que ela teria. Foi por isso que eu só contei pra minha avó. Ela me disse: "Mas Tamara, por que sozinha? Você não pode levar uns dois idiotas com você?”. Sem pensar muito, eu respondi: “Se eu posso contar com dois idiotas, eu também posso contar comigo mesma, né?”

[trilha sonora]

Geyze Diniz: Ela percorreu mais de 1.700 milhas e atravessou o Atlântico aos 24 anos. Muitos falam que ela estava sozinha nessa travessia. Ela diz o contrário. Conheça a história da doce e corajosa Tamara Klink. Ouça no final do episódio as reflexões do rabino, escritor e dramaturgo Nilton Bonder para te ajudar a se conectar com a história e com você mesmo. Eu sou Geyze Diniz e esse é o Podcast Plenae. Ouça e reconecte-se.


[trilha sonora]


Tamara Klink: A minha ideia original era atravessar o oceano num barco novo. Durante dois anos eu formei um time, desenhei o projeto e busquei sem cansar patrocínio pra construir esse veleiro. Eu fiz reuniões com pessoas de altos cargos que pareciam muito interessados em entrar no projeto. Em momentos decisivos, de vez em quando, surgia uma pergunta: “O que a gente vai fazer com a imagem da nossa marca se essa menina morrer no mar?”. 


[trilha sonora]


É verdade que eu nunca tinha feito uma travessia solo. Entendi que eu mesma precisava me dar os meios de começar de algum jeito. Pela internet eu conheci uma pessoa que estava disposta a me ajudar. Um professor de engenharia naval chamado Henrique que morava na Noruega e seguia o meu canal no Youtube. Ele tinha um barco que ele nunca usava e me convidou para ir para lá e usar esse barco dele durante as férias. Quando eu cheguei a gente conversou um pouco e em 15 minutos ele me disse uma frase que mudaria tudo: “Tamara, pra você ser comandante mesmo, você precisa ter seu próprio barco, porque só assim você vai poder tomar suas decisões com autonomia, sem precisar perguntar nem pedir autorização pra ninguém”.


A gente começou a ir atrás de uns veleiros num site de venda de usados. Pensei que seria uma boa ideia começar com algo pequeno, simples, antigo. Pequeno para os esforços não serem tão grandes para meus braços ainda finos. Antigo porque eu sabia que os cascos antigos eram mais espessos. Simples porque eu tinha muita coisa pra aprender. 


[trilha sonora]


Na internet, a gente achou uns dois barcos: um era legal, o preço um pouco alto e o antigo dono um pouco frio. O segundo não estava no melhor estado do mundo, entrava água por furos no cockpit que nunca tinham sido cobertos, tinha um probleminha no motor que cuspia água de refrigeração pra dentro de um balde que ficava dentro de outro balde que eu tinha que esvaziar a cada duas horas e metade do barco tinha sido queimada por um incêndio. Mas eu gostei do antigo dono e ele gostou do meu projeto. Ele topou me vender pelo preço de uma bicicleta e me deu a chave antes mesmo de saber meu nome. 


[trilha sonora]


A minha avó, a única pessoa da família que sabia do meu plano, minha confidente, escolheu o nome do veleiro. Ela propôs o nome de sardinha e eu gostei. É um peixe pequeno pro qual ninguém dá muito valor, mas que ao mesmo tempo é um peixe pelágico que vence grandes distâncias e nunca está sozinho, ele sempre nada em cardume. Mesmo na conserva, as sardinhas vêm juntas. É, o meu plano tinha mudado de construir um barco voador, relativamente complexo pra um barco de passeio de fim de semana, 26 pés, 8 metros de comprimento. Era mesmo uma sardinha, mas era o bastante pro que eu queria. 


[trilha sonora]


Eu levaria o barco até a França. Mil milhas pela frente, um mês de navegação. Eu era um tanto inexperiente, ainda não sabia parar um veleiro numa vaga de porto, eu nunca tinha tido a chance de tentar, ninguém nunca tinha me dado o leme de um outro barco pra fazer isso. Eu aprendi a fazer manobras com velas grandes, ainda não sabia como escolher qual vela colocar ou quando abaixar o pano, porque eu nunca tinha sido comandante, eu sempre fazia o que me falavam pra fazer antes de saber o motivo. É Tamara, só dá para aprender a navegar solitário navegando solitário.  


[trilha sonora]


Atravessar o mar do norte tem um certo desafio de cruzar com centenas de embarcações e navios carregando containers. É uma região com um enorme fluxo de navios. Eu achava que a Sardinha era um pouco pequena para esse trecho, mas a gente lidou bem com as adversidades. Comecei aos poucos a ficar segura com ela e mais segura comigo. É, de repente, a gente já tem o que precisa pra ir bem mais longe do que a gente pensa. 


[trilha sonora]


Assim que eu cheguei na França, eu tive a certeza que a gente podia fazer um trajeto quatro vezes maior, mas faltava. Precisava de recursos financeiros pra preparar a viagem, pra esse trecho que seria um tanto mais perigoso. Eu estava acostumada com negativas, eu já tinha passado por muitas. Mas, pelo menos dessa vez, uma busca por patrocínio eu tinha mais que uma ideia pra mostrar, eu tinha um mapa com meu trajeto traçado, eu tinha argumentos, eu tinha histórias, eu tinha dados, eu tinha as marcas na minha mão. Consegui marcar uma reunião com a Luiza Trajano, uma pessoa que pra mim parecia tão inatingível. No dia que eu a conheci, não parava de entrar e sair gente da sala, tinha pessoas de grandes cargos com muita responsabilidade ligando pra ela o tempo todo, e eu tentava conquistar um pouco de atenção pra falar da minha viagem, com uma certa vergonha do meu veleiro pequeno e antigo. De vez em quando, eu pensava: "Acho que não tenho muitas chances." Mas, para minha surpresa, ela viu a viagem de outro jeito. Ela gostou da ideia justamente porque eu mostrava que era possível ir muito longe com muito pouco e me disse que essa viagem tinha o poder de inspirar muitas mulheres. Aí eu fiquei pensando: “Mas será que eu tenho legitimidade pra inspirar alguém? Parece um objetivo tão abstrato. Mas, se ela disse, eu vou acreditar”. 


[trilha sonora]


Me planejei para sair no verão de 2021, pra aproveitar os ventos um pouco mais favoráveis do Golfo da Biscaia e também porque ia coincidir com o fim dos meus estudos. No dia que eu apresentei meu trabalho de conclusão de curso, eu corri pro barco, que estava em Lorient, na Bretanha. Durante um mês, eu pintei o fundo, eu refiz as vedações e fiz uma série de reparos e revisões pra deixar a França. Todas as vezes que eu planejei sair, o vento virava, tinha algum problema técnico e eu tinha que remarcar a data da partida. 


[trilha sonora]


Deixei Lorient em 11 de agosto, um dia de sol. As partidas são momentos de muita mistura de sentimentos. Eu tinha uma tristeza enorme por estar partindo da França. Simbolicamente, eu estava deixando para trás o país onde eu escolhi fazer meus estudos, onde eu ganhei autonomia, onde aprendi a navegar comigo mesma. Estava deixando para trás também um pedaço da minha história, amigos, namorado e partindo pro desconhecido absoluto. Essa viagem certamente ia me transformar de algum jeito. Quem eu serei quando eu chegar? Como a minha família vai ver isso? Como os outros, as pessoas que moram no Brasil, vão viver a minha viagem? Eu vou conseguir? E se não der certo?


[trilha sonora]


Os próximos 3 meses eram uma incógnita. Eu passava a maior parte do tempo navegando. Tinha três paradas previstas: Portugal, em Las Palmas na Espanha e em Cabo Verde, antes de chegar ao destino final, Recife.
 

Havia perigos reais na rota que eu fiz, desde possíveis encontros com orcas que atacavam os veleiros na costa de Portugal, até piratas ou o risco de bater em containers que flutuam no mar. Mas o primeiro perrengue que eu tive foi outro: uma enorme calmaria. A gente costuma imaginar que o perigo no mar vem em forma de tempestades ou ondas gigantes. As calmarias são momentos onde a gente fica sem nenhum controle, nem sobre a nossa direção. São períodos de pouquíssimo ou zero vento, são extremamente duras, principalmente pra dentro, pro nosso emocional. A gente dá tudo de si e avança quase nada. 


[trilha sonora]


Peguei uma calmaria logo no começo. Além de não ter vento, a corrente marítima estava contra. Eu tinha perdido a hélice do motor e fui carregada em direção às pedras, sem poder fazer nada pra impedir. Parece um pouco absurdo, mas a solução que eu encontrei foi ir em direção às pedras, eu colocava o barco no sentido da corrente, o nariz apontado pro perigo e pegava velocidade pra desviar. Foram 3 horas de muita tensão, mas foi o único jeito de eu ter manobrabilidade e ganhar tempo. Eu sabia que, a cada 6 horas, a corrente mudaria de sentido naquele pedaço da costa francesa.


Também tive calmaria no Golfo da Biscaia, entre a França e a Espanha. A minha cabeça começava a enlouquecer: “Será que vai durar pra sempre?” Começava a contar as garrafas de água que ainda tinham no barco. Se eu ficasse 10 dias daquele jeito, não sei se teria água o suficiente pra chegar no porto mais próximo. 


Quando a gente está parado no mesmo lugar, é mais fácil a gente perder a noção do risco e fazer bobagem. É nessa hora que a gente se distrai, que a gente sai sem colete salva-vidas, porque o mar tá um espelho e parece que não tem perigo. É quando a gente esquece de olhar o nível das baterias, porque tem tanto sol, é aí que a gente se acomoda. Quando tem água entrando por todos os lados, a gente nunca fica tranquilo. No mar, o maior perigo talvez seja baixar a guarda. Seja achar que a gente está no controle da situação, seja achar que a gente é inatingível ou invencível. 


[trilha sonora]


O segundo momento de dificuldade foi na costa de Portugal. Aí foi o contrário: muito, muito, muito vento e ondas curtas e altas. Fiquei com muito medo. Em alguns momentos, eu senti que uma ou outra avaria podiam por tudo a perder. Entrava muita água dentro do barco, eu perdi o leme de vento, que é uma espécie de piloto automático mecânico e rústico que para mim era fundamental. O barco parecia tão frágil naquele mar que, quando o leme quebrou, foi muito assustador ficar na mão. Eu tentava me acalmar, respirava e pensava: “Tamara, fica tranquila, no futuro será muito pior, no futuro os ventos serão mais fortes, as ondas serão maiores e mais curtas, aproveita agora, usa essa experiência pra aprender alguma coisa”. 


[trilha sonora]


O futuro chegou bem rápido. No trajeto mais longo da viagem, os 17 dias entre Cabo Verde e Recife, eu peguei um série de pirajás, que são essas nuvens escuras que fazem mini tempestades, com vento, chuva e onda. Um dos pirajás me deixou exausta e levou embora as minhas luzes de navegação, a minha antena e queimaram os meus 2 pilotos automáticos, o oficial e o reserva. Eu tive que passar mais de 30 horas com a barra do leme na mão. Às vezes eu sentia muita fome e eu sabia onde estava a comida, que ficava a menos de 2 metros dali, e eu não podia sair pra comer. Às vezes eu queria dormir e eu sabia que eu não podia. Quando eu não tinha mais força, eu pensava em outras viagens, em pessoas, em outros barcos que tinham passado por situações que pareciam muito mais difíceis que a minha. Eu lembrava que meu pai atravessou o Atlântico a remo e deixava de reclamar por estar segurando uma barra. "Pelo menos eu não estou nem remando". Quando eu sentia que meu barco não avançava, eu lembrava que as caravelas avançavam muito menos e que ainda por cima não conseguiam avançar contra o vento. 

[trilha sonora]


Era difícil lidar com a carência. Desde que eu parti da França, eu era a minha principal e exclusiva fonte de carinho. Às vezes eu me sentia esvaziada, sentia saudades da minha família, eu pensava no meu namorado, a muitas milhas dali, e nos meus amigos que eu não sabia se chegaria a rever. Em outros momentos, eu questionei: “O que eu estou fazendo aqui? Por que eu vim tão só pra esse lugar? Que é lugar nenhum.” 


Minha comunicação no barco era um tanto limitada. Eu envia e recebia mensagens de 160 caracteres e às vezes elas levavam mais de 24 horas pra sair do barco, atravessar a estratosfera, encontrar um satélite em órbita e voltar pra outro ponto da Terra, onde um amigo ou um familiar receberia "bom dia".


Na navegação em solitário, a gente parte de um porto e fica dias, semanas sem ver ninguém. A gente toma decisões sem ter com quem compartilhar. Às vezes a gente se sente em perigo, a gente tem dúvidas se vai chegar onde a gente queria e às vezes a gente tem dúvida se vai sobreviver. O mar exige que a gente aguente situações que, às vezes, a gente acha que não suporta. Sem descanso, sem distrações e com o mínimo conforto, é uma solidão profunda. 


[trilha sonora] 


Mas também tem partes incríveis. A bordo, eu podia inventar as minhas próprias regras,  podia seguir o fuso horário do lugar que eu quisesse, podia acordar com o som dos golfinhos atravessando o casco, eu podia varar uma noite debaixo de um céu 100% estrelado, podia ficar sem roupa, trocar o café da manhã pelo jantar, identificar espécies marinhas que pegavam carona no guarda corpo. Eu podia estar em lugares muito diferentes, cruzar linhas imaginárias dos trópicos e saber que cada chegada era inquestionável.


[trilha sonora]


Três meses depois da partida, eu cheguei ao Recife, onde encontrei a minha família me esperando. Eu me achava às vezes tão egoísta de estar navegando só, mas descobri que eu não estava sozinha naquele barco. A viagem foi vivida por muitas pessoas e despertou múltiplas travessias. Meninas, meninos, homens, mulheres, idosos e idosas que talvez nunca pensaram em navegar me escreveram dizendo que começaram a fazer aulas de vela, ou que tomaram coragem para ter uma família, adotar crianças, se separar, mudar de estado, de profissão, de curso acadêmico e tomar outras decisões importantes. Acho que a Luiza tinha razão. Sem saber, a viagem inspirava muitas outras travessias. 


[trilha sonora]


Sonhei grande, mas eu me permiti começar pequeno. Todos nós temos alguma coisa que nos orienta e que às vezes parece tão absurda que talvez nem receba a atenção devida. Eu acho que sonho não é algo que a gente decide ter. Ele está lá, dentro da gente e a gente precisa desvendar qual ele é e começar a tomar decisões, mesmo que pequenas, de algum jeito para ele se tornar real. Talvez o meu barco não fosse o barco que eu mais sonhei, talvez não era o que eu mais queria e eu sabia que eu corria o risco de ele não chegar até o final. Mas eu me permiti correr esse risco e me permiti me aproximar cada vez mais do meu objetivo. 


Durante a viagem, a escrita foi um instrumento importante pra aplacar a minha solidão. As páginas do diário funcionavam como o reflexo do espelho que eu não tinha. No texto, eu podia interagir comigo mesma.


“É assim que acaba?

No escuro da noite,

a voz das irmãs e primas de longe,

acenos ao longo do canal


ficaram os peixes voadores

ficaram as noites solitárias

ficaram as conversas com o silêncio


5.600 milhas náuticas me trouxeram de volta pros braços da minha avó.


É assim que acaba,

com um novo começo.”


[trilha sonora]


Nilton Bonder: Tal como a vida, é a metáfora de sua viagem que nos apresenta os desafios das tormentas e das calmarias. O que fazer quando estamos em crise e o que fazer quando o telefone não toca, mensagens não chegam e a vida parece à deriva, estagnada. Um soco no estômago, esse tal de você dar o melhor de si e não sair do lugar. As calmarias desativam a atenção, recurso fundamental no mar e na vida. Outro artifício básico é saber diminuir o drama. Olhar o meio copo cheio ao invés do vazio. Comparar sua velocidade frustrante com a das caravelas que até para trás iam, ou o cansaço de estar por 30 horas junto ao timão lembrando do pai que tinha que remar para sair do lugar. Tamara sabe também que navegar é preciso, mas só se for cheia de vontade. Os recursos motivacionais são tudo. Ir de encontro aos braços da avó ou inspirar mulheres como sugere e desafia Luiza Trajano, além de romper com limites, são o sopro maior de suas velas. Tomar risco é maravilhoso, mas fica a advertência das TVs, pra não fazer isso sem a presença de um adulto. O adulto aqui é você mesmo quando algo maduro, amadurecido em você é capaz de transformar uma loucura numa grande aventura e conquista. 


[trilha sonora]


Geyze Diniz: Nossas histórias não acabam por aqui. Confira mais dos nossos conteúdos em plenae.com e em nosso perfil no Instagram @portalplenae.


[trilha sonora]


Compartilhar:


Inscreva-se na nossa Newsletter!

Inscreva-se na nossa Newsletter!


Seu encontro marcado todo mês com muito bem-estar e qualidade de vida!

Grau Plenae

Para empresas
Utilizamos cookies com base em nossos interesses legítimos, para melhorar o desempenho do site, analisar como você interage com ele, personalizar o conteúdo que você recebe e medir a eficácia de nossos anúncios. Caso queira saber mais sobre os cookies que utilizamos, por favor acesse nossa Política de Privacidade.
Quero Saber Mais