Para Inspirar

Fernanda Ribeiro em "O meu trabalho é construir pontes"

Na décima segunda temporada do Podcast Plenae, se emocione e reflita com a história do empreendedorismo de Fernanda Ribeiro

28 de Maio de 2023



Leia a transcrição completa do episódio abaixo:

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Fernanda Ribeiro: A jornada de um empreendedor preto é totalmente diferente da jornada de um empreendedor não preto. A pista é a mesma, mas os obstáculos não são. O empreendedor preto já começa o negócio devendo pra algum familiar, porque ele não tem acesso a crédito. A rede de relacionamentos dele também é totalmente diferente da rede do pessoal da Faria Lima. A Conta Black e AfroBusiness surgiram justamente pra fortalecer a inclusão social e econômica da população preta.

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Geyze Diniz: A partir da constatação e indignação de que os empreendedores negros possuem mais dificuldades para colocarem seus negócios de pé, Fernanda Ribeiro co-fundou duas iniciativas que buscam reverter este cenário: a rede AfroBusiness e a fintech Conta Black.

Conheça essa história de inclusão social e econômica que faz a diferença na vida de muitas pessoas. 
Eu sou Geyze Diniz e esse é o Podcast Plenae. Ouça e reconecte-se.

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Fernanda Ribeiro: Minha mãe engravidou de mim aos 47 anos, usando DIU. Eu brinco que eu queria muito nascer. Os meus pais já tinham quatro filhas quando eu vim ao mundo. A mais nova era uma adolescente de 16 anos e a mais velha, uma jovem de 20. Então eu cresci sem crianças por perto. Nem na rua eu podia brincar, porque a nossa casa ficava numa avenida muito movimentada, em São Paulo. Eu passava o dia inteiro na companhia da minha tia-avó, a Dadinha, que também vivia com a gente.

O fato de eu ser uma criança sozinha me tornou uma pessoa curiosa, observadora e criativa. E até hoje eu sou assim. Eu não gostava muito dos programas de TV infantis da época. De uma maneira até arrogante, achava que eles eram bobos. Eu tinha que usar a imaginação pra encontrar um espaço lúdico naquele universo tão adulto. Eu criei o meu mundinho.

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Pra eu poder conviver com outras crianças, eu entrei na escola bem cedo. Quando eu cheguei ao colégio, eu já estava um pouquinho avançada em relação aos demais alunos, porque a Dadinha já tinha me ensinado muita coisa em casa. Eu fui a única das cinco filhas que estudou em escola particular. Os meus pais tiveram que fazer alguns sacrifícios pra conseguir pagar as mensalidades. Eles de fato investiram na minha educação.

No colégio, eu convivia com meninas e meninos mais ricos que eu. Mas, fora de lá, eu também conhecia uma realidade mais pobre do que a minha. A minha mãe sempre trabalhou em uma área da saúde ligada à assistência social. Às vezes, ela trazia pra casa crianças que estavam em processo de adoção na creche. Trazia também adolescentes grávidas que foram expulsas de casa.

A gente hospedava esses menores de idade por um período. 
A minha mãe me levava pra muitas vivências que ela fazia em favelas. Quando eu chegava na escola, eu compartilhava com as minhas amiguinhas o que eu tinha visto. Desde pequena, eu fui criando esse mindset de estabelecer pontes entre as pessoas de mundos distintos. 

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Quando chegou na época de escolher uma profissão, eu tive certeza que queria trabalhar com aviação. O meu pai se aposentou como funcionário público em um órgão do governo que faz a gestão dos aeroportos. Na infância, ele me levava pra ver pousos e decolagens das aeronaves. Às vezes, ele passeava comigo pelos bastidores de Congonhas, onde ele trabalhava. E aí nasce a minha paixão por aviação.

Eu me formei em turismo e trabalhei em duas companhias aéreas. O meu primeiro emprego foi na Varig, na área de fidelidade. Eu peguei o finalzinho da empresa. Quando eu vi que o negócio tava dando ruim, mudei pra outra. Comecei no setor de vendas e depois passei pra área de comunicação interna. À medida que eu ia crescendo na companhia aérea, eu ia percebendo que cada vez tinha menos pessoas parecidas comigo.

Não havia mulheres pretas, principalmente, em cargos de liderança. Aí, vinha aquele pensamento: “Eu preciso entregar mais”. Eu me esfolava de trabalhar pra fazer valer aquela oportunidade. A minha carga horária era de 16 horas por dia. Naquele ritmo, eu sabia que uma hora o corpo ia espanar. E ele espanou num domingo à noite. 

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Eu fui levada pro hospital com enjoo, dores, mal-estar, todos os sintomas de um infarto. Só que não era um infarto. Eu fiquei internada por dias fazendo exames. Mas, mesmo na cama de um hospital, meu celular não parava de tocar. Era uma época de bastante trabalho, por conta de uma transição de sistemas. Eu recebi várias vezes a ligação do meu chefe questionando: “E aí, quando você volta?” Era tipo assim: “Eu sei que você tá doente, mas eu preciso da entrega”.

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Quando saíram os resultados dos exames, os médicos disseram que eu não tinha nenhuma doença física. Como na época não se falava muito de burnout, eles explicaram que o meu problema era stress. Recomendaram então que eu tirasse férias, praticasse exercício físico, me alimentasse melhor e que fizesse terapia.

Aquele piripaque, junto com as cobranças do meu gestor insensível, foram um baque pra mim. Ficou claro que eu era somente um número na empresa. E se eu morresse, eu seria substituída em horas. Ainda no hospital, eu decidi: "Eu não quero mais essa vida". Quando eu contei que eu ia pedir demissão, as pessoas ao redor me disseram: "Você tá louca."

E realmente, pra quem olha de fora pode parecer loucura. Eu ganhava um bom salário. Eu tinha o benefício de poder viajar praticamente de graça, como funcionária. E além do mais, aquele emprego era a realização de um sonho de infância. Só que aquele sonho tinha se transformado num pesadelo.

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Eu peguei firme na terapia e, antes de pedir demissão, comecei a desenhar um processo de transição de carreira.

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Eu juntei dinheiro e decidi que iria tirar um ano sabático. A ideia era me dedicar a novos conhecimentos, dos mais óbvios aos mais estranhos. Eu fiz curso de matemática, de jardinagem, de cerâmica, de idioma e de direitos humanos. E foi num desses cursos que eu conheci o terceiro setor e comecei a gostar desse universo. 

Nesse ano, eu me dediquei também pra ampliar a minha rede de relacionamentos. Eu marcava cafés com pessoas aleatórias, só pra conhecer outras realidades. Porque às vezes a gente pode achar assim: “Eu sou uma pessoa preta, então eu conheço a realidade das pessoas pretas”. Mas não é assim. Eu conheço a especificidade de uma mulher preta que teve acesso a uma realidade Y e que mora num lugar X.

O bairro onde uma pessoa reside pode mudar totalmente a percepção de mundo dela. Como desde nova eu já vivenciava cenários diferentes aos meus, eu entendia que era importante potencializar essa visão no meu dia a dia. E tentar gerar conexões entre esses mundos acabou se tornando o meu propósito de vida. 

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Meu ano sabático acabou antes do previsto, junto com dois sócios, o Sérgio e o Márcio, fundamos uma rede de empreendedores, intraempreendedores e profissionais liberais pretos. A ideia surgiu porque o Sérgio, que já era meu namorado na época, trabalhava como publicitário e precisava de um advogado.

O Márcio era advogado e que também precisava de um publicitário. Eles, que são dois homens pretos, perceberam que não conheciam tantas pessoas pretas fazendo negócios entre si. Naquela época, o Linkedin não era tão forte como é hoje. Daí eles pensaram: “E se a gente juntasse o nosso networking?”

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A gente criou uma rede exatamente pra proporcionar oportunidades de trabalho, renda e negócios pra pessoas pretas. O Sérgio conhecia outros empreendedores como ele. O Márcio atuava na área tributária e tinha muitos contatos com profissionais liberais. E eu entrei com a minha bagagem corporativa. Juntos, montamos uma plataforma. Em pouco tempo, essa plataforma foi finalista da premiação de uma big tech.

E, por causa dessa premiação, a gente foi parar na mídia e nossa rede cresceu. Atualmente, a AfroBusiness tem mais de 9 mil empreendedores espalhados pelo Brasil inteiro. Quando um empreendedor passa por uma formação nossa ele entra numa rede de conexão e tem um faturamento oito vezes maior, comparado com quem não fez o mesmo caminho.

Nesse processo, a gente descobriu que a população preta tem demandas financeiras específicas. Por exemplo, um empreendedor preto tem o crédito negado quatro vezes mais comparado a um empreendedor branco exatamente nas mesmas condições. O Sérgio tinha passado por essa situação muito tempo antes.

Ele era dono de uma agência de publicidade que estava indo muito bem com 30 funcionários. E ele sempre foi um maníaco por tecnologia, dado momento, quis mudar o parque tecnológico da agência. Mas quando ele foi ao banco, o gerente negou o empréstimo.


E o Sérgio perguntou: “Mas por quê? Eu tenho o nome limpo. Eu consumo todos os produtos de vocês. A minha folha de pagamento tá aqui. Você sabe onde eu ganho e onde eu gasto”. E não adiantou. Naquela época, o Sérgio saiu do banco e profetizou: “Um dia, eu vou abrir um banco”. 

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A gente entendeu que aquilo era uma oportunidade de negócio e fundamos a Conta Black, com o objetivo de proporcionar a inclusão e educação financeira. Hoje, eu trabalho pra construir pontes e atrair investimentos pra empreendedores pretos. 

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Nesse processo de transformação do futuro, é fundamental ter aliados. Quando uma pessoa não negra investe conosco pode ajudar a gerar microcrédito pra pessoas pretas. Mas é preciso ter intenção. A gente conhece cases de empreendedores brancos que receberam investimentos com a startup só no PPT. Eles não tinham sequer um produto validado, só uma ideia de negócio e uma boa rede de relacionamentos.

Pro empreendedor preto, até mesmo quando ele está inserido no universo das startups, não é assim. A gente já passou por diversas conversas com fundos, onde o nosso produto já estava rodando, com cliente utilizando a plataforma e ainda assim a gente ouvia questionamento do tipo: “Ai, eu sinto que esse negócio não vai dar certo, que ele não vai parar de pé”. Tem um problema estrutural por trás de tudo isso. As pessoas que estão do outro lado da mesa normalmente são brancas.

E ali tem o viés de dar crédito para quem é parecido com elas, como aconteceu com o Sérgio lá atrás. Existem estudos que falam sobre isso. Se a gente sair do recorte de raça e olhar o recorte de gênero, é exatamente a mesma coisa. As startups lideradas por homens recebem mais investimento, quando comparadas as startups lideradas por mulheres.


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Desde que a AfroBusiness nasceu lá atrás, em 2015, algumas coisas mudaram. Eu vejo de uma maneira positiva as ações afirmativas. Hoje, existem fundos de investimento focados em startups lideradas por pessoas pretas. O Google tem um fundo desses aqui no Brasil. Inclusive, a Conta Black recebeu um aporte dele.

Mas, o empreendedor preto segue passando pelos mesmos desafios. E a gente só consegue modificar um cenário quando olha pra ele com uma lente de aumento. Eu ouço muito: “Ah, Fernanda, o crédito que foi negado pro Sérgio lá atrás hoje não seria, porque a análise não passa mais pelo gerente, ela é sistêmica”.

Eu entendo, mas por trás do sistema ainda existem pessoas. Hoje, os grandes bureaus que fazem análise de crédito olham fatores estruturais que ainda são excludentes. Um exemplo simples é que dos 9 critérios para determinar a concessão de crédito um deles é o CEP.

Então, uma pessoa que reside na Avenida Paulista vai ter muito mais oportunidades do que aquele que vive no Capão Redondo, na periferia de São Paulo. Se não tiver intenção, se não tiver uma lente de aumento, as diferenças sociais vão continuar sendo reproduzidas, inclusive pela tecnologia. 

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Geyze Diniz: Nossas histórias não acabam por aqui. Confira mais dos nossos conteúdos em plenae.com e em nosso perfil no Instagram @portalplenae.

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Para Inspirar

Verônica Hipólito em "A zona de conforto é um lugar prazeroso, pena que nada acontece lá"

A sétima temporada do Podcast Plenae está no ar! Confira a história da atleta Verônica Hipólito. Aperte o play e inspire-se!

20 de Fevereiro de 2022


Leia a transcrição completa do episódio abaixo:


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Verônica Hipólito: Eu tenho 25 anos e já passei por quatro cirurgias, três no cérebro e uma no intestino. Também sofri um AVC, que deixou uma sequela de paralisia no meu corpo. Mas eu não só isso. Eu também sou campeã mundial nos 200 metros rasos, tenho sete medalhas parapan-americanas, duas medalhas paralímpicas, uma de prata e outra de bronze. Sou uma das oito mulheres mais rápidas do mundo de todos os tempos do esporte paralímpico. Há quem diga que as minhas conquistas são fruto do destino, mas eu não compro essa história. Eu acredito em criar e aproveitar as janelas de oportunidade, se arriscar, sair da zona de conforto. 


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Geyze Diniz: Exemplo de resiliência, a atleta paralímpica Verônica Hipólito, ao longo da sua infância, adolescência e vida adulta, teve sempre que driblar seus problemas de saúde para ultrapassar seus recordes, desafios e, literalmente, correr atrás dos seus sonhos. Verônica se abala com as frustrações como qualquer um de nós, mas não se permite cair no lugar do vitimismo. Para ela, a chave do sucesso é aprender a jogar com as cartas que a vida lhe dá. 


Conheça a história da velocista e orgulho nacional Verônica Hipólito. Ouça, no final do episódio, as reflexões do especialista em desenvolvimento humano, Mark Kirst, para te ajudar a se conectar com a história e com você mesmo. Eu sou Geyze Diniz e esse é o podcast Plenae. Ouça e reconecte-se.


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Verônica Hipólito: O esporte sempre fez parte da minha vida. Por incentivo dos meus pais, pratiquei de tudo um pouco. Natação, volêi, futebol, ginástica, futsal, basquete, tênis de mesa, de quadra, judô, karatê…Ufa! Os meus pais nunca pensaram em me transformar numa atleta profissional. Eles são professores de história e acreditam na educação e no esporte como ferramenta pra formação de caráter. Essa era a motivação deles.


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Eu era ruim em quase todas as modalidades, mas me encontrei no judô. Fui pro campeonato municipal, de lá pro estadual, depois pro estadual do interior e então consegui a tão sonhada vaga pra disputar o nacional. Umas semanas antes da competição brasileira, descobri que eu tinha um tumor na cabeça e precisava operar com urgência. Eu tinha 12 anos.

 

Minha mãe me disse na época pra fazer o que deveria ser feito. Eu operei, e depois da cirurgia soube que não poderia voltar pro campeonato nacional. Na verdade, eu nem sequer poderia lutar judô novamente, nem praticar qualquer modalidade de impacto.

 

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Eu fiquei muito chateada. De uma hora pra outra, eu não podia  fazer mais a atividade que eu mais amava. Ainda na infância, na base da porrada, eu comecei a aprender um conceito que seria vital pra mim até hoje: resiliência.

 

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Resiliência é a capacidade de se adaptar às más condições. Ou, nas minhas palavras, é a vida te derrubar, te encher de porrada e você se levantar. 

 

Meu pai viu que eu tava muito triste e me inscreveu num festival de atletismo, pertinho de casa. Era domingo, umas 7 horas da manhã, e eu não queria ir, mas ele me levou mesmo assim. Eu corri pela primeira vez, e levei uma surra. Não liguei pra derrota e saí de lá falando que queria ser a menina mais rápida da cidade. Meu pai disse: “Então, se esforce para isso”. Parece cena de filme, eu sei, mas aconteceu desse jeitinho.

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Eu comecei a treinar atletismo e me empolguei. Tava indo tudo bem, até que uma noite, aos 14 anos, senti um formigamento no braço e na perna. Eu tava em casa. Tentei falar pro meu irmão, mas a frase não saía da minha boca. Caí no chão e acordei no hospital, com a parte direita do meu corpo paralisada. Me disseram que eu tive um AVC e não poderia voltar a correr, talvez nem caminhar. Na alta, na porta do hospital, meu pai me disse pra eu não aceitar que alguém dissesse o que era possível ou impossível pra mim. Eu voltei pra fisioterapia e pra fonoaudiologia. Reaprendi a falar, a andar, a trotar, a correr e a correr mais rápido.

 

Procurei a melhor equipe de atletismo da cidade, fiz um teste e passei. Mas, por mais que eu treinasse, eu continuava mancando. Eu tinha espasmos e meu braço ficava extremamente rígido. O treinador da época disse que provavelmente eu era uma atleta paralímpica, que estava competindo com os olímpicos. 

 

Aos 16 anos, fiz uma classificação pra saber se eu tinha legitimidade ou não pra entrar no movimento paralímpico. E eu tinha, pela sequela do AVC. No campeonato regional, conquistei 3 medalhas de ouro. Depois, mais três no nacional. E no meu primeiro mundial, me tornei campeã e recordista dos 200 metros rasos. Naquele momento, eu não era só a mais rápida da cidade, eu era a mais rápida do planeta! 

 

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Eu continuei ganhando tudo e, aos 19 anos, faltava só um ano pra competição mais desejada por todos os atletas: as paralimpíadas. Até que eu comecei a me sentir mais fraca, com sono, e descobri que tinha mais de 200 tumores no meu intestino grosso. Não é câncer, mas é uma mutação genética que facilita a produção de tumores benignos em alguns lugares do meu corpo. De novo: problema versus solução. Eu acreditei na ciência e encarei a cirurgia pra retirar 90% do meu intestino grosso. Me recuperei e voltei a correr, conquistei o índice pros jogos paralímpicos e fui pro Rio de Janeiro. Foi a minha consagração. Eu ganhei a medalha de prata nos 100 metros rasos e bronze nos 400. 

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É claro que, como atleta, eu sempre quero mais. Eu tava voando e mirando nos ouros que eu queria conquistar em Tóquio. Mas o tumor no cérebro voltou. Eu operei. Em 2018, tive que repetir a cirurgia, por causa de erro médico. Dessa vez, o baque foi imenso, o maior de todos. 

 

Eu já não tinha uma parte da minha hipófise, que é uma das glândulas que produz hormônios. Por causa dos remédios, o meu peso foi de 47 quilos pra mais de 70. Eu vestia PP com folga e, de repente, passei a usar GG. De repente, eu tava cheia de estrias, com uma barriga enorme. Eu não aceitava aquele corpo.

 

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Foi muito frustrante. Eu me perguntava: por que eu? Se tem tanta gente que faz coisa errada, por que isso acontece comigo? Por que minha família tem que passar por isso de novo? Eu busquei uma resposta em vários lugares: no catolicismo, no protestantismo, na umbanda, no espiritismo, no budismo, em tudo que tinha “ismo”. E não encontrei um por quê. Ninguém desceu do céu pra falar comigo. Eu não queria mais treinar, e eu sentia raiva o tempo todo. Era só raiva, raiva e raiva. Demorou um tempo pra eu entender que aquele não era o melhor jeito de encarar as coisas.

A minha inspiração pra voltar a treinar foi olhar pros meus pais, pra minha saudade de correr, pra minha equipe, pras pessoas que me incentivam. Eu entendi que eu podia sentir raiva, ficar brava, insegura, mas eu tinha que voltar a fazer aquilo que eu sei, aquilo que eu amo: correr. 

 

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A primeira corrida de treino eu me lembro muito bem. Tinha chovido a semana inteira. No dia, fez um sol de rachar a cabeça. Eu já tava me firmando bem em pé, e o meu fisioterapeuta, o Mauro Meloni, falou pra mim: “Tenta correr, mas só um pouquinho”. 

 

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Eu fiquei com medo. Aí refletiu um raio de sol numa placa de vidro e fez um reflexo fortíssimo. Eu sou fã de Star Wars, e o Mauro disse: “Corre em direção à luz”. Eu dei risada, tomei coragem e consegui dar quase um trote.

Depois veio a primeira competição, no Centro de Treinamento Paralímpico Brasileiro, em São Paulo. Era uma prova de 100 metros. Eu só consegui índice pra tá lá, porque pegaram a minha marca do ano anterior. Tinha muita gente assistindo e eu queria que todo mundo fosse embora antes da minha corrida. Mas a galera não foi. Quando eu entrei na pista, a arquibancada tava lotada, lotada de tudo. E aí alguém berrou: “A Verônica vai conseguir, ela sempre consegue”. Aí mais gente gritou palavras de incentivo.

Quando comecei a correr, os 100 metros pareciam mil quilômetros. Meu tempo foi péssimo, mais de 14 segundos, que é muito acima da minha melhor marca, 12 segundos e 80 centésimos. Tomei um coro e cheguei em último lugar. Doeu. Eu chorei de raiva, tristeza, desespero e até felicidade, tudo misturado. Minha mãe tava lá e ela falou: “Agora é trabalhar”.

Fui pro Parapan, em Lima. Como eu não acreditava no pódio, eu não queria que minha mãe fosse comigo. Ela insistiu e disse: “Eu vou porque eu quero te ver, no primeiro lugar ou não”. Na hora da competição, me deram 5 minutos e eu pensei: “Meu, já que eu tô aqui, bora. Minha mãe vai continuar me assistindo, meus amigos vão me assistir, eu vou fazer o que?” Eu ainda tava acima do peso, me recuperando de duas canelas quebradas, mas dei o meu melhor. Na prova de 200 metros, eu saí muito rápido. Faltando 30 metros pra acabar, eu sabia que eu ia conquistar a prata e comecei a chorar de felicidade. Depois meu professor brigou comigo depois. Se eu não tivesse chorado, dava pra tentar o ouro. Mas eu ganhei a prata também nos 100 metros. Eu, que antes desprezava a prata, fiquei MUITO feliz com essas medalhas. O significado delas era gigante.

 

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Mas a minha principal conquista de todas, curiosamente, foi NÃO conseguir ir pros Jogos Paralímpicos de Tóquio. Sabe aquele tumor no cérebro? Ele voltou e interrompeu o meu treino. Dessa vez, parece que virou uma chavinha na minha cabeça. Eu não senti raiva. Eu não perguntei o “por que eu?”, eu nem fui buscar respostas no além. 

 

A gente tem a mania de só considerar o sucesso quando traça um plano e aquele plano dá certo. Eu entendi que não é bem assim. O sucesso não necessariamente vem da maneira que a gente desenhou. E aí entra, de novo, a resiliência. Eu aprendi a jogar com as cartas que a vida me dá. É chato ter operado tantas vezes? É chato. Eu fico chateada? MUITO! Mas a vida não foi feita pra gente ficar chorando e resmungando. Eu sinto a raiva e a tristeza, mas depois enxugo as lágrimas e busco a solução. Para que complicar? De uma maneira inesperada, recebi um convite do canal SporTV pra comentar os Jogos Paralímpicos de Tóquio. Eu me diverti e aprendi MUITO. Foi uma maneira diferente de ir pra competição, sem o peso de antes.

 

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Muita gente brinca que a vida não é uma corrida de 100 metros, mas sim uma maratona. A minha provavelmente é uma maratona, de tantas coisas que acontecem. Mas uma maratona formada por ciclos de 100 metros. E uma corrida de 100 metros não é definida em 12 , ou em 9 segundos, se você for o Usain Bolt. O resultado é definido no dia-a-dia, quando você decide se levantar ou ficar na cama. Quando você decide sentar e chorar ou ir pra cima. Todos os dias, eu coloco um tijolinho na construção da minha final Paralímpica, na medalha de ouro que eu quero buscar em Paris. Eu vou operar o cérebro pela quarta vez e vou voltar aos treinos.

A zona de conforto é um lugar prazeroso, pena que nada acontece lá. Já a zona onde estão os seus sonhos é um lugar cansativo, muitas vezes dolorido e cheio de frustrações. Na zona de conforto você não sente medo e raiva, mas fica estagnado pra sempre. Vive no eterno “e se”, “e se eu tivesse tentado?”

Muitos achavam que seria impossível eu voltar a andar depois do AVC. Eu voltei a correr. Muitos achavam que seria impossível eu conseguir ser reconhecida no mundo esportivo. Eu me tornei a mulher mais rápida do mundo e me tornei medalhista paralímpica. Muitos achavam que seria impossível eu ir pra Tóquio. Eu fui, de uma maneira inesperada, mas fui. Nada é impossível. Trabalho duro, humildade, honestidade e resiliência nos levam para lugares incríveis. Tente.

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Mark kirst: A história de infinitas superações de Verônica é capaz de nos demonstrar, na prática, um dos maiores segredos no uso da nossa mais perigosa e potente ferramenta humana: a mente. Nesta existência atual, duas forças convivem a todo momento. Um pulso evolutivo e expansivo, que nos estimula a crescer, superar os nossos limites e conquistar mais vida a cada oportunidade. A outra força é a da resistência, que busca poupar energia, preservar o conhecido e defender a famosa zona de conforto. 


A mente é o filtro que determina qual dessas forças vencerá a prova de cada dia. O segredo aberto para todos, mas compreendido por poucos, é o poder de decisão que todos temos ao alcance a todo momento. Veronica define a virada de perspectiva com simplicidade: “vou encarar a situação como problema ou solução”? Fomos inspirados a nos permitir sentir a potência da raiva para depois poder transmutar a dor em força de evolução. Independente da magnitude do obstáculo ou desafio, se cedermos a reatividade automática e negativa da mente, cairemos numa espiral descendente que nos leva a questionar a própria capacidade, sabotar as possibilidades e paralisar qualquer ação. Ao encarar desafios de tamanhos inimagináveis para a maioria de nós, e continuar mesmo assim escolhendo pela volta por cima, Verônica nos convida a perceber que a nossa realidade é sim produto da nossa liberdade de interpretação. Qual é a sua corrida? E quais são os seus obstáculos? Sua vitória mora no ouro, ou na capacidade de cair e levantar? 


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