Precisamos falar de amor

Ao ouvir a palavra amor, qual o primeiro sentimento que surge em você?

14 de Abril de 2022


Precisamos falar de amor
O que você vai encontrar por aqui: 
  • Por que é tão difícil amar?
  • Uma nova perspectiva sobre o amor
  • Amor versus paixão
  • O que é autointimidade
  • O atlas das emoções
  • As linguagens do amor
Boa leitura! 
Ao ouvir a palavra amor, qual o primeiro sentimento que surge em você?

Se você sentiu um leve desconforto e pensou até em desistir desta leitura, saiba que não está só. Vivemos uma sociedade que considera falar de amor algo naif, onde o cinismo tem sido usado no lugar da esperança de encontrá-lo e o desamor é a palavra de ordem do dia. E talvez, exatamente por isso, falar de amor se tornou extremamente necessário e, porque não, revolucionário. 

Todos nós ansiamos por sentí-lo, é uma necessidade intrínseca de nosso ser. Mas, de alguma forma, apesar de sabermos de sua importância, somos literalmente bombardeados por seu fracasso. Falar de amor talvez gere constrangimento, pois chama a atenção de que sua falta é mais comum do que sua presença nos dias de hoje. 

Alguns autores afirmam que nossa dificuldade de amar tem como fonte uma certa confusão sobre o que significa o sentimento, já que usamos a palavra para nomear praticamente tudo, pulverizando seu significado. Os dicionários enfatizam o amor romântico na busca de defini-lo, mas concordamos com Bell Hooks quando ela diz que amar é muito mais do que sentir uma “afeição profunda por uma pessoa”. 

Para ela, a melhor definição de amor é aquela que nos faz pensar nele como ação. Mais que mobilizar afetos, ele é uma atitude ética, com princípios que motivam e orientam o comportamento humano. Assim, se o “amor é o que o amor faz”, nos vemos convocados a assumir a responsabilidade e o compromisso com esse aprendizado.

Para Hooks e outros autores, a solução mais efetiva e afetiva  para vencer os dispositivos de ódio presentes em nossa sociedade é, justamente, regressar a esse sentimento. Quando colocado na centralidade da vida, tem a potência de transformar, inclusive, diferentes esferas como a política, a religião, o local de trabalho, o ambiente doméstico e as relações íntimas. Afinal, como afirmou o pastor Henrique Vieira, “o amor sensibiliza o coração, amplia o olhar, areja a mente, estende a mão e coloca nossos pés nos caminhos da paz”

Assim, acreditamos que vale a pena aprofundar nosso conhecimento e reflexão a respeito desse tema. Queremos com isso ajudar você a não só resgatar a esperança de que o amor é possível, mas que consiga construir em sua vida uma ética amorosa capaz de transformar tudo ao seu redor.  
Fundo no assunto
O amor para além do romantismo


Você já observou que não existem escolas que ensinam a amar? Aprendemos sobre as mais diversas habilidades, mas quando se trata dessa especificamente, todo mundo supõe que saberemos, instintivamente, como fazê-lo. Aqueles que não experimentam o amor no núcleo familiar, espera-se que o encontrem no relacionamento romântico. Porém, o que acontece normalmente é a repetição dos dramas vividos na infância e, diante da decepção da idealização não alcançada, passamos uma vida inteira tentando desfazer os danos causados pelo desamor que experimentamos. 

Bell Hooks, em seu livro “Tudo sobre o amor: novas perspectivas”, declara que precisamos reconhecer quão pouco sabemos sobre isso na teoria e na prática para que possamos abrir nossos corações novamente. “Devemos encarar a confusão e a decepção em relação ao fato de que muito do que nos foi ensinado a respeito da natureza do amor não faz sentido quando aplicado à vida contidiana”. Na busca por encontrar uma definição significativa, Hooks se apoia nas palavras de M. Scott Peck, psiquiatra e autor do livro, “A trilha menos percorrida”, que diz:

                      

Ao encarar o amor como uma ação, ao invés de um sentimento que foge do nosso controle, podemos entender que o amor não está dado, mas é uma construção cotidiana, que ganha sentido a partir de escolhas conscientes nesta direção. Para amar verdadeiramente, precisamos aprender a misturar vários ingredientes: carinho, afeição, reconhecimento, respeito, compromisso, confiança, honestidade e comunicação aberta. Cada aspecto isolado corresponde a uma dimensão do amor, mas não ao amor em si. É por isso que muitas vezes, em nossas relações, podemos nos sentir cuidados, podemos até sentir afeto, mas não nos sentimos amados. 

Fato é que não há muitos debates públicos a respeito do amor em nossa cultura hoje. Assim, nos voltamos aos livros, aos filmes, músicas e poesias para ver nossos anseios amorosos expressos. Na ótica ocidental, segundo o professor Renato Noguera, autor do livro “Por que amamos?”, o amor romântico se tornou o formato fundamental dessa expressão e, por isso, sempre que pensamos no sentimento como um todo, acabamos colocando as lentes do romantismo. Ainda, por um longo período, as histórias, mitos e cânticos sobre ele estavam sempre imersos em paixão, o que consolidou uma perspectiva de que amor é sinônimo de estar apaixonado. 

Porém a paixão, como muito, é considerada apenas uma etapa desse complexo mistério, normalmente presente no começo de uma relação, onde o outro ainda é um enigma e estamos embriagados pela intensidade dos sentimentos despertados por esta profunda atração, como te explicamos neste artigo: O que acontece com o nosso cérebro quando estamos apaixonados? 

Alimentados pela fantasia romântica, pautada na crença de que o amor depende apenas de “química”, acreditamos que o vivenciaremos quando encontrarmos uma paixão arrebatadora, que nos tire do controle, nos deixe sem escolha. E para dificultar ainda mais, falsas noções sobre o amor nos ensinam que ele acontece sem esforço, sendo intensamente e constantemente prazeroso. Assim, quando as primeiras dificuldades aparecem, quando o outro se revela em toda sua imperfeição, nos decepcionamos e acreditamos que o relacionamento acabou. 

Na realidade, amar dá trabalho, não é essa história perfeita de “felizes para sempre”. Exige empenho, a cura das dores da infância, coragem para correr riscos e um pacto sincero com a verdade. É preciso disposição para refletir sobre as próprias ações, para abrir mão do desejo de controle sobre o outro, para se revelar em sua inteireza e aceitar o outro no nível em que se expressa agora, mantendo um compromisso constante e genuíno com o próprio crescimento e o da pessoa amada. 

                           

Na escola do amor, o ABC começa com autointimidade, o que ultrapassa a categoria do autoconhecimento. Significa ir além do raciocínio intelectual, da análise, entrando em conexão com os próprios sentimentos e emoções. Autointimidade, segundo Renato Noguera, é “a habilidade afetiva por estar em conexão com os próprios afetos, reconhecendo limites e o caráter inseparável do que pensamos, do que sentimos e do que fazemos”

Sem essa intimidade consigo mesmo, fica difícil entender as próprias necessidades emocionais e como atendê-las. Quando o desejo de conexão não acontece, tendemos a substituí-lo pelo desejo de possuir e acabamos nos relacionando com o mundo a partir da perspectiva do consumo, transformando tudo em coisa, objetificando inclusive as pessoas.  E não há como o amor prevalecer em situações em que uma das partes quer ter poder sobre a outra. 

Mas engana-se quem pensa que esta jornada interior é simples. Segundo Brené Brown, pesquisadora norte-americana que ganhou notoriedade especialmente após seu Ted Talks “O poder da vulnerabilidade”, uma das razões que dificulta o conhecimento das nossas emoções é a falta de vocabulário para nomear o que sentimos. 
Em sua mais recente pesquisa, publicada no livro “Atlas of the Heart” (O Atlas do coração, ainda sem tradução para o português), ela observou que ao perguntar às pessoas quantas emoções eram capazes de reconhecer em si mesmas no momento em que as estavam sentindo, a grande maioria só conseguia nomear 3 emoções: alegria, tristeza e raiva. Segundo ela, esse resultado é alarmante, pois a linguagem não só comunica nossos sentimentos, mas modela e até modifica nossas experiências afetivas, já que buscamos encaixá-las dentro do mundo conhecido. 

Ainda, muitas evidências científicas mostram que a capacidade de lidar com nossas emoções depende dessa habilidade em reconhecer e nomear com exatidão o que estamos sentindo, como também te contamos nesta entrevista. Neste sentido, precisamos entender que mesmo uma emoção como a raiva possui diversos níveis, ou granularidades e cada estado emocional nos convida a uma determinada ação. 

Para auxiliar nesta jornada, o Dr. Paul Ekman, junto com sua filha Eve, e a pedidos do próprio Dalai Lama, criaram o Atlas das Emoções, uma ferramenta interativa para ampliar nosso vocabulário emocional e nossa compreensão de como as emoções podem desencadear uma série de ações construtivas ou destrutivas. O objetivo aqui é aprender a identificar os gatilhos, ampliar a consciência emocional e, assim, ter controle sobre as respostas que daremos, escolhendo aquelas que contribuem para o bem-estar de todos os envolvidos.

A partir do desenvolvimento da autointimidade, podemos então levantar o olhar para o outro e estabelecer conexões afetivas mais saudáveis. Quanto mais nos aceitamos, mais preparados estamos para afirmar e aceitar os outros, assim como assumir responsabilidades em todas as áreas de nossas vidas. Ao reconhecer nossa própria complexidade, podemos abrir espaço para a complexidade que é o outro. Como comentamos na matéria Você sabe ler a emoção do outro?, uma maior inteligência emocional constrói um alicerce sólido para relações, seja romântica, de trabalho ou de família, mais amorosas. 
O que dizem por aí
All we need is love, right?


                   

Apesar de estarmos vivendo um momento em que o discurso de ódio parece imperar na sociedade, alguns autores afirmam que ele não é o oposto ao amor. Na verdade, eles compartilham a mesma energia pulsante que nos convida para a ação. O inverso do amor é o medo. É a força primária que mantém as estruturas de dominação, que promove o desejo de separação e isolamento, que nos faz acreditar que qualquer tipo de diferença é uma ameaça. Por isso, é preciso encarar os medos que rodeiam nossa mente, não só individuais como os coletivos, difundidos pela nossa cultura. 

Hoje sabemos que a chave para alcançar uma vida longeva e com qualidade está nas relações que estabelecemos em nossas vidas, como explicamos na matéria A relação entre vida social e longevidade. O isolamento e a solidão são extremamente tóxicos, causas centrais da depressão e do desespero. Ao mesmo tempo, podemos nos sentir só no meio de uma multidão, entre amigos, ou mesmo no casamento, pois é a qualidade da relação que desperta o sentimento de conexão com o outro. Assim, é fundamental nos comprometermos com o aprendizado do amor para criar encontros significativos.

São muitos os sinais de que estamos no caminho de uma revolução amorosa. Cada dia surgem mais pessoas escrevendo, lendo e debatendo sobre a poderosa força do amor, para além do “amor romântico”. Além de Bell Hooks e Renato Noguera, citados anteriormente, podemos destacar o trabalho do pastor Henrique Vieira, que coloca o amor como potência para romper preconceitos e construir uma sociedade mais justa em seu livro “O amor como revolução”; e o Ted Talk de Valarie Kaur “3 lições do amor revolucionário em tempos de ódio”, que propõe o sentimento como antídoto para a polarização que vivemos hoje.
Aprendendo os idiomas do amor

             

E se o amor é uma força poderosa que traz uma revolução pessoal e comunitária, outro ponto importante neste estudo é entender que existem diferentes linguagens do amor. Gary Chapman, autor do best-seller “As cinco linguagens do amor”, mergulhou neste estudo e seus achados foram tão importantes que seu livro está na lista dos mais vendidos do New York Times desde 2009. 

Nele, Gary explica que muitos dos problemas que enfrentamos nos relacionamentos reside no fato de que cada um expressa e reconhece a expressão do afeto de formas diferentes, como se falássemos diferentes idiomas. Assim, a máxima “faça com os outros o que gostaria que fizessem com você” não funciona no terreno amoroso. 

Precisamos entender que o desejo do outro pode ser diferente do seu e, assim, nos esforçar por aceitar, validar e criar pontes que nos aproximam. A seguir, deixamos uma breve explicação de cada tipo de linguagem proposta por Chapman, veja se você consegue reconhecer qual o seu idioma para o amor:   


    
Quer saber mais? Separamos alguns conteúdos que podem te ajudar
a fazer um mergulho ainda mais profundo, não deixe de conferir!

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