Para Inspirar

Tamara Klink em "A minha viagem despertou travessias em outras pessoas"

A oitava temporada do Podcast Plenae está no ar! Confira a história da navegante Tamara Klink. Aperte o play e inspire-se!

22 de Maio de 2022


Leia a transcrição completa do episódio abaixo:


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Tamara Klink: Eu sabia, racionalmente, que a ideia de atravessar o Atlântico sozinha não era exatamente a melhor do mundo naquela hora. Eu não tinha a experiência necessária para uma aventura desse porte, nem dinheiro. Meu barco era velho, pequeno, não exatamente super seguro e o trajeto era bem longo. Se eu falasse pra minha mãe, eu com certeza ia desistir, porque ela ia me transmitir os medos inevitáveis que ela teria. Foi por isso que eu só contei pra minha avó. Ela me disse: "Mas Tamara, por que sozinha? Você não pode levar uns dois idiotas com você?”. Sem pensar muito, eu respondi: “Se eu posso contar com dois idiotas, eu também posso contar comigo mesma, né?”

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Geyze Diniz: Ela percorreu mais de 1.700 milhas e atravessou o Atlântico aos 24 anos. Muitos falam que ela estava sozinha nessa travessia. Ela diz o contrário. Conheça a história da doce e corajosa Tamara Klink. Ouça no final do episódio as reflexões do rabino, escritor e dramaturgo Nilton Bonder para te ajudar a se conectar com a história e com você mesmo. Eu sou Geyze Diniz e esse é o Podcast Plenae. Ouça e reconecte-se.


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Tamara Klink: A minha ideia original era atravessar o oceano num barco novo. Durante dois anos eu formei um time, desenhei o projeto e busquei sem cansar patrocínio pra construir esse veleiro. Eu fiz reuniões com pessoas de altos cargos que pareciam muito interessados em entrar no projeto. Em momentos decisivos, de vez em quando, surgia uma pergunta: “O que a gente vai fazer com a imagem da nossa marca se essa menina morrer no mar?”. 


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É verdade que eu nunca tinha feito uma travessia solo. Entendi que eu mesma precisava me dar os meios de começar de algum jeito. Pela internet eu conheci uma pessoa que estava disposta a me ajudar. Um professor de engenharia naval chamado Henrique que morava na Noruega e seguia o meu canal no Youtube. Ele tinha um barco que ele nunca usava e me convidou para ir para lá e usar esse barco dele durante as férias. Quando eu cheguei a gente conversou um pouco e em 15 minutos ele me disse uma frase que mudaria tudo: “Tamara, pra você ser comandante mesmo, você precisa ter seu próprio barco, porque só assim você vai poder tomar suas decisões com autonomia, sem precisar perguntar nem pedir autorização pra ninguém”.


A gente começou a ir atrás de uns veleiros num site de venda de usados. Pensei que seria uma boa ideia começar com algo pequeno, simples, antigo. Pequeno para os esforços não serem tão grandes para meus braços ainda finos. Antigo porque eu sabia que os cascos antigos eram mais espessos. Simples porque eu tinha muita coisa pra aprender. 


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Na internet, a gente achou uns dois barcos: um era legal, o preço um pouco alto e o antigo dono um pouco frio. O segundo não estava no melhor estado do mundo, entrava água por furos no cockpit que nunca tinham sido cobertos, tinha um probleminha no motor que cuspia água de refrigeração pra dentro de um balde que ficava dentro de outro balde que eu tinha que esvaziar a cada duas horas e metade do barco tinha sido queimada por um incêndio. Mas eu gostei do antigo dono e ele gostou do meu projeto. Ele topou me vender pelo preço de uma bicicleta e me deu a chave antes mesmo de saber meu nome. 


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A minha avó, a única pessoa da família que sabia do meu plano, minha confidente, escolheu o nome do veleiro. Ela propôs o nome de sardinha e eu gostei. É um peixe pequeno pro qual ninguém dá muito valor, mas que ao mesmo tempo é um peixe pelágico que vence grandes distâncias e nunca está sozinho, ele sempre nada em cardume. Mesmo na conserva, as sardinhas vêm juntas. É, o meu plano tinha mudado de construir um barco voador, relativamente complexo pra um barco de passeio de fim de semana, 26 pés, 8 metros de comprimento. Era mesmo uma sardinha, mas era o bastante pro que eu queria. 


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Eu levaria o barco até a França. Mil milhas pela frente, um mês de navegação. Eu era um tanto inexperiente, ainda não sabia parar um veleiro numa vaga de porto, eu nunca tinha tido a chance de tentar, ninguém nunca tinha me dado o leme de um outro barco pra fazer isso. Eu aprendi a fazer manobras com velas grandes, ainda não sabia como escolher qual vela colocar ou quando abaixar o pano, porque eu nunca tinha sido comandante, eu sempre fazia o que me falavam pra fazer antes de saber o motivo. É Tamara, só dá para aprender a navegar solitário navegando solitário.  


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Atravessar o mar do norte tem um certo desafio de cruzar com centenas de embarcações e navios carregando containers. É uma região com um enorme fluxo de navios. Eu achava que a Sardinha era um pouco pequena para esse trecho, mas a gente lidou bem com as adversidades. Comecei aos poucos a ficar segura com ela e mais segura comigo. É, de repente, a gente já tem o que precisa pra ir bem mais longe do que a gente pensa. 


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Assim que eu cheguei na França, eu tive a certeza que a gente podia fazer um trajeto quatro vezes maior, mas faltava. Precisava de recursos financeiros pra preparar a viagem, pra esse trecho que seria um tanto mais perigoso. Eu estava acostumada com negativas, eu já tinha passado por muitas. Mas, pelo menos dessa vez, uma busca por patrocínio eu tinha mais que uma ideia pra mostrar, eu tinha um mapa com meu trajeto traçado, eu tinha argumentos, eu tinha histórias, eu tinha dados, eu tinha as marcas na minha mão. Consegui marcar uma reunião com a Luiza Trajano, uma pessoa que pra mim parecia tão inatingível. No dia que eu a conheci, não parava de entrar e sair gente da sala, tinha pessoas de grandes cargos com muita responsabilidade ligando pra ela o tempo todo, e eu tentava conquistar um pouco de atenção pra falar da minha viagem, com uma certa vergonha do meu veleiro pequeno e antigo. De vez em quando, eu pensava: "Acho que não tenho muitas chances." Mas, para minha surpresa, ela viu a viagem de outro jeito. Ela gostou da ideia justamente porque eu mostrava que era possível ir muito longe com muito pouco e me disse que essa viagem tinha o poder de inspirar muitas mulheres. Aí eu fiquei pensando: “Mas será que eu tenho legitimidade pra inspirar alguém? Parece um objetivo tão abstrato. Mas, se ela disse, eu vou acreditar”. 


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Me planejei para sair no verão de 2021, pra aproveitar os ventos um pouco mais favoráveis do Golfo da Biscaia e também porque ia coincidir com o fim dos meus estudos. No dia que eu apresentei meu trabalho de conclusão de curso, eu corri pro barco, que estava em Lorient, na Bretanha. Durante um mês, eu pintei o fundo, eu refiz as vedações e fiz uma série de reparos e revisões pra deixar a França. Todas as vezes que eu planejei sair, o vento virava, tinha algum problema técnico e eu tinha que remarcar a data da partida. 


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Deixei Lorient em 11 de agosto, um dia de sol. As partidas são momentos de muita mistura de sentimentos. Eu tinha uma tristeza enorme por estar partindo da França. Simbolicamente, eu estava deixando para trás o país onde eu escolhi fazer meus estudos, onde eu ganhei autonomia, onde aprendi a navegar comigo mesma. Estava deixando para trás também um pedaço da minha história, amigos, namorado e partindo pro desconhecido absoluto. Essa viagem certamente ia me transformar de algum jeito. Quem eu serei quando eu chegar? Como a minha família vai ver isso? Como os outros, as pessoas que moram no Brasil, vão viver a minha viagem? Eu vou conseguir? E se não der certo?


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Os próximos 3 meses eram uma incógnita. Eu passava a maior parte do tempo navegando. Tinha três paradas previstas: Portugal, em Las Palmas na Espanha e em Cabo Verde, antes de chegar ao destino final, Recife.
 

Havia perigos reais na rota que eu fiz, desde possíveis encontros com orcas que atacavam os veleiros na costa de Portugal, até piratas ou o risco de bater em containers que flutuam no mar. Mas o primeiro perrengue que eu tive foi outro: uma enorme calmaria. A gente costuma imaginar que o perigo no mar vem em forma de tempestades ou ondas gigantes. As calmarias são momentos onde a gente fica sem nenhum controle, nem sobre a nossa direção. São períodos de pouquíssimo ou zero vento, são extremamente duras, principalmente pra dentro, pro nosso emocional. A gente dá tudo de si e avança quase nada. 


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Peguei uma calmaria logo no começo. Além de não ter vento, a corrente marítima estava contra. Eu tinha perdido a hélice do motor e fui carregada em direção às pedras, sem poder fazer nada pra impedir. Parece um pouco absurdo, mas a solução que eu encontrei foi ir em direção às pedras, eu colocava o barco no sentido da corrente, o nariz apontado pro perigo e pegava velocidade pra desviar. Foram 3 horas de muita tensão, mas foi o único jeito de eu ter manobrabilidade e ganhar tempo. Eu sabia que, a cada 6 horas, a corrente mudaria de sentido naquele pedaço da costa francesa.


Também tive calmaria no Golfo da Biscaia, entre a França e a Espanha. A minha cabeça começava a enlouquecer: “Será que vai durar pra sempre?” Começava a contar as garrafas de água que ainda tinham no barco. Se eu ficasse 10 dias daquele jeito, não sei se teria água o suficiente pra chegar no porto mais próximo. 


Quando a gente está parado no mesmo lugar, é mais fácil a gente perder a noção do risco e fazer bobagem. É nessa hora que a gente se distrai, que a gente sai sem colete salva-vidas, porque o mar tá um espelho e parece que não tem perigo. É quando a gente esquece de olhar o nível das baterias, porque tem tanto sol, é aí que a gente se acomoda. Quando tem água entrando por todos os lados, a gente nunca fica tranquilo. No mar, o maior perigo talvez seja baixar a guarda. Seja achar que a gente está no controle da situação, seja achar que a gente é inatingível ou invencível. 


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O segundo momento de dificuldade foi na costa de Portugal. Aí foi o contrário: muito, muito, muito vento e ondas curtas e altas. Fiquei com muito medo. Em alguns momentos, eu senti que uma ou outra avaria podiam por tudo a perder. Entrava muita água dentro do barco, eu perdi o leme de vento, que é uma espécie de piloto automático mecânico e rústico que para mim era fundamental. O barco parecia tão frágil naquele mar que, quando o leme quebrou, foi muito assustador ficar na mão. Eu tentava me acalmar, respirava e pensava: “Tamara, fica tranquila, no futuro será muito pior, no futuro os ventos serão mais fortes, as ondas serão maiores e mais curtas, aproveita agora, usa essa experiência pra aprender alguma coisa”. 


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O futuro chegou bem rápido. No trajeto mais longo da viagem, os 17 dias entre Cabo Verde e Recife, eu peguei um série de pirajás, que são essas nuvens escuras que fazem mini tempestades, com vento, chuva e onda. Um dos pirajás me deixou exausta e levou embora as minhas luzes de navegação, a minha antena e queimaram os meus 2 pilotos automáticos, o oficial e o reserva. Eu tive que passar mais de 30 horas com a barra do leme na mão. Às vezes eu sentia muita fome e eu sabia onde estava a comida, que ficava a menos de 2 metros dali, e eu não podia sair pra comer. Às vezes eu queria dormir e eu sabia que eu não podia. Quando eu não tinha mais força, eu pensava em outras viagens, em pessoas, em outros barcos que tinham passado por situações que pareciam muito mais difíceis que a minha. Eu lembrava que meu pai atravessou o Atlântico a remo e deixava de reclamar por estar segurando uma barra. "Pelo menos eu não estou nem remando". Quando eu sentia que meu barco não avançava, eu lembrava que as caravelas avançavam muito menos e que ainda por cima não conseguiam avançar contra o vento. 

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Era difícil lidar com a carência. Desde que eu parti da França, eu era a minha principal e exclusiva fonte de carinho. Às vezes eu me sentia esvaziada, sentia saudades da minha família, eu pensava no meu namorado, a muitas milhas dali, e nos meus amigos que eu não sabia se chegaria a rever. Em outros momentos, eu questionei: “O que eu estou fazendo aqui? Por que eu vim tão só pra esse lugar? Que é lugar nenhum.” 


Minha comunicação no barco era um tanto limitada. Eu envia e recebia mensagens de 160 caracteres e às vezes elas levavam mais de 24 horas pra sair do barco, atravessar a estratosfera, encontrar um satélite em órbita e voltar pra outro ponto da Terra, onde um amigo ou um familiar receberia "bom dia".


Na navegação em solitário, a gente parte de um porto e fica dias, semanas sem ver ninguém. A gente toma decisões sem ter com quem compartilhar. Às vezes a gente se sente em perigo, a gente tem dúvidas se vai chegar onde a gente queria e às vezes a gente tem dúvida se vai sobreviver. O mar exige que a gente aguente situações que, às vezes, a gente acha que não suporta. Sem descanso, sem distrações e com o mínimo conforto, é uma solidão profunda. 


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Mas também tem partes incríveis. A bordo, eu podia inventar as minhas próprias regras,  podia seguir o fuso horário do lugar que eu quisesse, podia acordar com o som dos golfinhos atravessando o casco, eu podia varar uma noite debaixo de um céu 100% estrelado, podia ficar sem roupa, trocar o café da manhã pelo jantar, identificar espécies marinhas que pegavam carona no guarda corpo. Eu podia estar em lugares muito diferentes, cruzar linhas imaginárias dos trópicos e saber que cada chegada era inquestionável.


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Três meses depois da partida, eu cheguei ao Recife, onde encontrei a minha família me esperando. Eu me achava às vezes tão egoísta de estar navegando só, mas descobri que eu não estava sozinha naquele barco. A viagem foi vivida por muitas pessoas e despertou múltiplas travessias. Meninas, meninos, homens, mulheres, idosos e idosas que talvez nunca pensaram em navegar me escreveram dizendo que começaram a fazer aulas de vela, ou que tomaram coragem para ter uma família, adotar crianças, se separar, mudar de estado, de profissão, de curso acadêmico e tomar outras decisões importantes. Acho que a Luiza tinha razão. Sem saber, a viagem inspirava muitas outras travessias. 


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Sonhei grande, mas eu me permiti começar pequeno. Todos nós temos alguma coisa que nos orienta e que às vezes parece tão absurda que talvez nem receba a atenção devida. Eu acho que sonho não é algo que a gente decide ter. Ele está lá, dentro da gente e a gente precisa desvendar qual ele é e começar a tomar decisões, mesmo que pequenas, de algum jeito para ele se tornar real. Talvez o meu barco não fosse o barco que eu mais sonhei, talvez não era o que eu mais queria e eu sabia que eu corria o risco de ele não chegar até o final. Mas eu me permiti correr esse risco e me permiti me aproximar cada vez mais do meu objetivo. 


Durante a viagem, a escrita foi um instrumento importante pra aplacar a minha solidão. As páginas do diário funcionavam como o reflexo do espelho que eu não tinha. No texto, eu podia interagir comigo mesma.


“É assim que acaba?

No escuro da noite,

a voz das irmãs e primas de longe,

acenos ao longo do canal


ficaram os peixes voadores

ficaram as noites solitárias

ficaram as conversas com o silêncio


5.600 milhas náuticas me trouxeram de volta pros braços da minha avó.


É assim que acaba,

com um novo começo.”


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Nilton Bonder: Tal como a vida, é a metáfora de sua viagem que nos apresenta os desafios das tormentas e das calmarias. O que fazer quando estamos em crise e o que fazer quando o telefone não toca, mensagens não chegam e a vida parece à deriva, estagnada. Um soco no estômago, esse tal de você dar o melhor de si e não sair do lugar. As calmarias desativam a atenção, recurso fundamental no mar e na vida. Outro artifício básico é saber diminuir o drama. Olhar o meio copo cheio ao invés do vazio. Comparar sua velocidade frustrante com a das caravelas que até para trás iam, ou o cansaço de estar por 30 horas junto ao timão lembrando do pai que tinha que remar para sair do lugar. Tamara sabe também que navegar é preciso, mas só se for cheia de vontade. Os recursos motivacionais são tudo. Ir de encontro aos braços da avó ou inspirar mulheres como sugere e desafia Luiza Trajano, além de romper com limites, são o sopro maior de suas velas. Tomar risco é maravilhoso, mas fica a advertência das TVs, pra não fazer isso sem a presença de um adulto. O adulto aqui é você mesmo quando algo maduro, amadurecido em você é capaz de transformar uma loucura numa grande aventura e conquista. 


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Geyze Diniz: Nossas histórias não acabam por aqui. Confira mais dos nossos conteúdos em plenae.com e em nosso perfil no Instagram @portalplenae.


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Para Inspirar

Renata Rocha em “Conheci a meditação pela dor, mas fiquei por amor”

A oitava temporada do Podcast Plenae está no ar! Confira a história da coach de vida e propósito Renata Rocha. Aperte o play e inspire-se!

19 de Junho de 2022


Leia a transcrição completa do episódio abaixo:


Renata Rocha - Muitas pessoas dizem assim: “Meditação não é pra mim, porque eu penso demais, eu sou muito ansiosa”. Pois eu garanto que a meditação é EXATAMENTE pra quem fala isso. A agitação mental é nociva para o ser humano. A pessoa fica presa em distrações, se preocupando com o futuro ou remoendo o passado.

É por causa disso que, hoje, os nossos grandes males são a ansiedade e a depressão. Meditar é um remédio poderoso para curar essas e outras doenças. É uma ferramenta gratuita, que está disponível para pessoas de todas as idades, de todas as classes sociais, de qualquer lugar do mundo. A meditação é universal.

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Geyze Diniz:
Já imaginou ficar 10 dias em silêncio? Meditando por 9 horas? Renata Rocha, coach de vida e propósito, passou por esta experiência e ressignificou seu olhar para o mundo e para si mesma. Conheça a história de transformação pessoal e profissional da fundadora do Positiv App, a partir da sua espiritualidade. Ouça no final do episódio as reflexões do rabino, escritor e dramaturgo Nilton Bonder para te ajudar a se conectar com a história e com você mesmo. Eu sou Geyze Diniz e esse é o Podcast Plenae. Ouça e reconecte-se.

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Renata Rocha:
Quando eu tinha 22 anos, eu fui diagnosticada com fibromialgia, uma doença autoimune que causa dores intensas no corpo todo. Os sintomas começaram no mesmo dia em que terminei um namoro com uma pessoa de quem eu gostava muito, mas com quem era impossível eu me relacionar em paz. Era uma dor que eu nunca tinha sentido na vida, num lugar que se chama fáscia, entre o osso e o músculo. Parecia uma inflamação generalizada no corpo inteirinho, que me paralisava e impedia de trabalhar.

Eu passei 2 anos tendo crises, procurando médicos e tomando remédios. Mas o tratamento era só paliativo e não resolvia direito. Quando eu não via mais saída para essa dor, pra esse sofrimento, eu comecei a tomar antidepressivo. Eu não tinha depressão, mas o remédio aumenta a quantidade de serotonina no corpo e funciona como um analgésico.

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Um dia, o meu chefe na época me convidou pra ir a um evento com música, mantras e meditação. Foi no estúdio de yoga da minha amada professora Márcia De Luca, em São Paulo. Era um programa bem inusitado pra mim, não tinha nada a ver com o meu universo na época, mas eu fui de coração aberto.
Quando eu fechei os olhos e fui conduzida na meditação, eu senti como se eu tivesse vivendo um reencontro com um lugar familiar, aconchegante dentro de mim.

Eu pensei: “UAU! Isso aqui é incrível! Como eu não conhecia isso antes?”. E
u me senti tão bem, que eu me matriculei na hora na escola e comecei a praticar meditação e yoga. Duas semanas depois… as dores da fibromialgia sumiram. Quanto mais eu meditava, menos desconforto eu sentia. Depois de algum tempo, eu não precisei mais tomar medicamento nenhum.

[trilha sonora]

Quando a gente sente uma dor, seja ela física, emocional ou mental, parece que só ela existe e que a gente não tem nenhum controle sobre aquela situação. Mas, com a meditação, eu consegui enxergar o meu próprio sofrimento à distância. Eu me vi maior que a dor e, aos poucos, eu fui me auto regulando e me curando.

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Isso já é bastante coisa, mas foi só o começo do que a meditação fez por mim.

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Meditar abriu um portal de espiritualidade na minha vida.
A conexão que eu passei a sentir com algo maior do que eu foi tão forte, que eu deixei o meu trabalho. Na época, eu era headhunter de presidentes de empresas e eu senti que aquele não era mais o meu lugar.

Eu precisava ir pro Oriente, para o Oriente que estava dentro de mim, mais pautado pelo ser, pela cultura de bem viver e de autocuidado. Eu saí da sociedade do escritório e abri mão do sucesso ou pelo menos do que eu conhecia de sucesso. E aí eu embarquei para um sabático de 1 ano e meio pela Ásia, sozinha.

[trilha sonora]

A minha viagem começou na Índia, especificamente em Rishikesh, que é a meca da meditação e do yoga no mundo. Foi pra lá que os Beatles viajaram, nos anos 60, e revelaram a meditação transcendental pro Ocidente. De Rishikesh, eu fui pra Dharamsala, também na Índia, o exílio do Dalai Lama desde que ele precisou fugir do Tibete.

Nessa cidade espetacular, rodeada pelas montanhas dos Himalaias, eu participei do meu primeiro retiro de vipassana. Na tradição budista, vipassana em pali, que é a língua de Buda, significa insight, algo que acontece quando a gente entra num estado de concentração profunda. No retiro, a gente passava 9 horas meditando por dia, durante 10 dias. Não era permitido conversar com ninguém, nem sequer olhar no olho de ninguém. Não podia ler, escrever, ouvir música, praticar algum exercício. Todos os dias, todo mundo acordava às 4 da manhã e sentava na posição de lótus às 4h30. Era um lugar de muito silêncio, exceto pelo barulhos dos corvos.

Mulheres e homens ficavam separados em alojamentos e no salão de meditação. Eu era uma das poucas estrangeiras, no meio de muitas indianas, e nos três primeiros dias, a gente recebeu a seguinte instrução: “Preste atenção no ar que entra e sai das suas narinas”. Só isso, 9 horas por dia. Eu achei que eu fosse enlouquecer, e comecei a pensar: “Esse pessoal não sabe de nada. Eu aprendi técnicas muito mais evoluídas do que essa que eles estão ensinando aqui”.

Eu quis ir embora, mas a professora do curso, que já estava acostumada com gente querendo fugir do retiro, veio conversar comigo. E muito gentilmente, ela me explicou que eu ia melhorar, que eu ia ficar mais tranquila e aproveitar aqueles dias de meditação e as práticas. Eu resolvi dar uma chance, porque eu entendi que a revolta era do meu ego, que não gosta de ser nada controlado. E aí, lá pelo sétimo dia, eu tive uma experiência que eu nunca imaginei.

Talvez você já tenha escutado ou lido alguma coisa sobre os chakras. Eles são os centros de energia do nosso corpo, que vão da base da coluna até acima da coroa da cabeça. Quem pratica yoga sempre ouve falar sobre eles. Eu já tinha ouvido falar, mas nesse retiro eu entendi exatamente como eles funcionam.

Quando eu estava em estado de concentração total, eu vi os meus sete grandes chakras em movimento. E de olhos fechados, eu vi eles girando em círculos, em altíssima velocidade, cada um com uma cor. Eles funcionavam sem parar, regulando diferentes sistemas do nosso corpo. Era algo que eu já sabia na teoria, mas nunca tinha experimentado e nunca mais experimentei. Foi impressionante.

[trilha sonora]

O budismo explica que a mente é como se fosse um lago e os pensamentos como o vento. Quando o ar sopra, ele forma ondulações na água. Assim, tudo que você vê no reflexo do lago é uma distorção. A meditação é um treino para deixar a mente cristalina, sem ondulações nem distorções. Se a gente consegue aquietar a mente, entramos em um estado de relaxamento profundo e acessamos uma frequência energética mais elevada. É um lugar tão sutil onde não há relação com tempo, espaço e nem matéria.

Eu saí desse retiro muito mexida e senti uma vontade muito grande de compartilhar a minha experiência com o maior número de pessoas. Porque o nosso coração é assim, né? Ele quer espalhar uma boa notícia. Em algum lugar do Himalaia, eu conheci um brasileiro chamado João, um cara que eu considero genial e que entende muito de tecnologia.

Ele se tornou um grande amigo e, juntos, a gente pensou em criar um aplicativo de meditação. O João trouxe outro sócio, o Helder, que manja muito de inteligência artificial e design. E assim nasceu o Positive App, que é um aplicativo que hoje tem mais de mil meditações, com vários objetivos. Tem práticas pra dormir, pra focar, pra relaxar, pra quem tá tendo um ataque de pânico e precisa se acalmar na hora.

Tem ainda cursos de autoconhecimento e autodesenvolvimento. É um aplicativo brasileiro, em português, com profissionais seríssimos que fazem um trabalho consistente. O app veio da vontade de fazer do mundo um lugar mais positivo e por isso o nome da Positiv. A nossa ideia é deixar o nosso entorno melhor do que a gente encontrou.

[trilha sonora]

Já tem 12 anos que eu fiz aquele sabático. Eu parei aqueles meses pra me dedicar só a mim, ao meu estudo e à minha relação com a espiritualidade. Eu estava com 28 anos na época e pensava: “Nossa! Se todo mundo tivesse a oportunidade de se dedicar ao espírito em uma parte da vida, o planeta certamente seria melhor”. Na tradição dos Vedas, que deu origem ao hinduísmo, as pessoas se devotam ao espírito no quarto final da vida, depois dos 60 anos. Na verdade, eu acho que quanto antes a gente puder descobrir esse caminho, melhor será a nossa existência. Ter a percepção de que o mundo espiritual está aqui, em todos os lugares, é algo maravilhoso.

Falando dessa maneira, pode parecer até algo enigmático, esotérico. Mas não é bem assim. Os benefícios da meditação já foram super validados pela ciência. E a prática é tão ancestral, quanto moderna, e é o grande remédio do século 21. Isso eu escutei do Jon Kabat Zinn, que é professor na escola de medicina da Universidade de Massachusetts.

Foi ele que levou o mindfulness
pro ambiente acadêmico e popularizou essa técnica no Ocidente. Em 2014 eu organizei uma viagem para um grupo de brasileiros e tive a graça de passar um dia inteiro com ele. E nesse dia, ele pegou o ideograma chinês de “meditation” e mostrou: as palavras “meditação” e “medicação” têm a mesma raiz etimológica.

Esse cara criou na universidade um programa para redução de dor, que depois virou um programa para redução de estresse. O curso dele dura 8 semanas e é muito disseminado no mundo. Ele fala: se você praticar meditação, você vai melhorar. E não é que você vai ganhar um poder super místico. Não. Você vai treinar a sua mente e, a partir desse treinamento, a sua cabeça vai funcionar de uma forma diferente pra lidar com o estresse, com a depressão, com a ansiedade. E ou você vai se curar de uma dor, porque você vai conhecer ela melhor, e vai ter ferramentas que podem funcionar como um remédio para aquele sofrimento.

É como um tratamento alopático mesmo. Se você precisa tomar um remédio por 8 semanas, você tem pelo menos uma expectativa de falar: “Na segunda semana, eu vou estar melhor. Na sexta, eu vou estar MUITO melhor. Na oitava então, eu vou me livrar  desse medicamento”. O Jon Kabat Zinn propõe algo assim com a meditação. Hoje, médicos do mundo todo já estão prescrevendo a prática de mindfulness, banhos de floresta e exercícios de respiração.
Não é uma questão de fé. Simplesmente funciona, porque de fato a gente se conecta com quem a gente é de verdade.

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Eu sou a prova viva disso. A fibromialgia é incurável. Ela já voltou pra minha vida algumas vezes, em momentos de estresse. Mas hoje eu conheço a dor e a minha mente. Eu não preciso mais de remédio para amenizar o meu incômodo que a doença traz. Quando a dor começa a chegar, eu sei que preciso retomar as práticas de uma forma mais firme e consistente. E nesse quesito, eu desenvolvi a minha médica interior e ganhei muita autonomia. Eu conheci a meditação pela dor, mas fiquei nela, com certeza, por amor.

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Nilton Bonder:
Renata nos traz o seu testemunho sobre a meditação como um recurso de cura. Porém, ao mencionar que a meditação é o remédio do século XXI, diagnostica também a doença do século XXI. Essa doença é a autoconsciência, um excesso ou overdose da consciência. Se o pensamento é um vento, os pensamentos do século XXI são uma tempestade, uma enxurrada de impulsos externos e internos.

Talvez haja uma crise climática interna como existe externamente. E se a meditação é reconhecida como eficaz pela medicina, o estresse é ainda mais comprovado como danoso à saúde. O estresse não é um estado de atenção, mas de alerta. É uma neurose de consciência, não uma reação de exagero à uma experiência, mas a reação em exagero de experiências. 

Tenho certeza de que a meditação é um santo remédio. Ela faz você prestar atenção ao respirar, ao invés de ficar alerta. Traz calmaria aos pensamentos e faz você se sentir sendo, ao invés de se possuir e controlar. Mas cá pra nós, é melhor prevenir do que remediar, então pode ser no Himalaia, mas ar fresco e cuca fresca é a “véia” dica do matuto para uma vida mais harmônica.

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Geyze Diniz:
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